As roupas

O desamparo das roupas largadas sobre a cadeira e a cama – ramos partidos de uma árvore que não vingará mais. Nas roupas, as dobras guardam cisternas em que pássaros não pousam, nem répteis circundam, por menosprezar a esterilidade da terra nevoenta. Salobra é cada peça, e as marcas dos dedos  nelas são murchas, incapazes de ressurreição e viço. O casual abandono não é casual. Acumulam-se as roupas, porque o corpo já se abandonou de si, na consciência dilacerante de que o tempo não joga mais a favor de sua dinâmica. O corpo e sua dinâmica. O corpo e suas engrenagens sem espírito. A caligrafia agônica da efemeridade deposita em cada fio o fel e o abraço de mortuário. Oscilante ou endurecida cada peça fala, enquanto garante a mudez das encruzilhadas perdidas. Claro que tudo poderia ser mais vaporoso e festivo, contudo, houve obrigação demais, falta demais, efeitos de conflitos que ora são vermes, ora, sondas, e a rapacidade do tempo, ao lado deles, tritura o bálsamo da alegria a evaporar. O quarto impermeável do mundo. Falta caução para uma viagem, mesmo curta, distender-se além dos três metros quadrados. As roupas não são partilhadas e o vulcão extinto revela em sua crosta faces por acaso esculpidas que nada dizem, nada sopram ou murmuram. Foi-se a época do gesto triunfante, do peito farfalhando mil promessas de amplitude. Se bem olhado, em cada canto do quarto há o refrão de um escárnio, a pele soltando-se dos ossos, os dedos feito fagócitos tentando comer o que não há ao derredor. Houve trapaça um dia e outro dia. As muralhas súbitas apareceram, anulando a geometria dos olhos. O que amenizará esta teia de buracos? A purulenta degradação esgueira-se por baixo da porta para logo reinar sobre as roupas e compor o níquel trivial do definhamento. Há em cada tecido lâminas de prontidão para alertar que a próxima curva pode ser a última. O repentino lacre quebrado de um salto no azul não ocorre mais. Acontecem cinzas e suas montanhas, e o noturnal endereço das roupas desnuda o corpo de promessas. Degradante e sem ingresso, o corpo reclina-se até o chinelo e vê as pilhas de livros não lidos Porque não há poeira sobre eles. As roupas embaçam suas cores nos restolhos disformes. As roupas aquietam-se onde são largadas e nem sabem se ganharão as ruas uma vez mais. Talvez sejam cartões de passagem de ônibus sem mais crédito.

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