A respiração dos olhos

Grandes massas de céu prendiam os olhos numa esquina entre luz e sombra. Os olhos, peixes arredios, vagavam pelo azul fosforescente e recusavam a função de barcos, para carregar o corpo até o outro lado. Saltavam e corriam, independentes do peso há séculos acumulados no corpo e em suas gavetas. Estas gavetas eram mortuários de quase tudo o que se passou: perdas alastradas no grão de cada hora, estilhaços do pensamento obsessivo vomitado sem trégua pelos vulcões da mente, restrições de ordem tão entranhada que até a palavra não dá conta dela, rejeições por tudo que antes brilhava como farol do dia. De costas para todos estes alarmes, os olhos mostravam uma segurança inviolável e iam esgueirando-se com graça pelos focos evocativos da carne. Para eles inexistiam estantes abarrotadas a colocar em itálico a vida que talvez pegou o bonde do autoengano. Eles respiravam e sua respiração germinava verdes caules para homenagem ao sol e suas linhas inalcançáveis. Os olhos também palpitavam e sabiam que em sua órbita podia haver reservas de diamantes uma vez à disposição das palavras. O ar do mundo era o ar dos olhos. Os olhos miravam das altas torres para torres ainda mais resplandecentes de cuidados bons com as engrenagens: ir aos poucos recuperando o espaço perdido, o retorno dos pequenos momentos de reclusão e solicitude. E por este expediente, armazenavam o óleo para os interiores desgastados. Os olhos removiam as pedras e as asas cansadas, ressuscitavam os pássaros de outra era e prometiam amplitude ao que estava engasgado no mesmo passo. Isso era bom, grande vitória, afinal, depois de tanto tempo de entulho.

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