Que viagem é esta?

Hora após hora, nos desdobramos em mil para tornar verde o marrom de nossa empulhação e de nossas máscaras mal enjambradas sobre os olhos. E com os lábios na horizontal do solo reconhecemos: ainda não é hora ou a hora passou enquanto dormíamos agarrados a bonecos de pano. Sobrevivemos a mais um dia na inútil tarefa de pensar uma batalha ganha, esquecendo-nos das armas enferrujadas sob a mesa, a cama, o tapete. Vencemos coisa alguma. E como poderíamos, com estes braços de plástico misturados a composição de pior espécie? Desde cedo estivemos presos ao visgo vítreo que nos prende as pernas e ficamos sem caminhar, sem nos mover deste círculo idiota marchetado com merencórias insígnias, porque pensamos que o brilho delas nos traria grandeza. Esta grandeza: os azulejos da cozinha partidos, vertendo corrosão, as brechas repletas de vermes que disputam nosso alimento. Nada é grandeza, nada traz grandeza, é bom saber. Que gritem os comerciais a glória de viver! E toca a andar em círculo, a ferver na mesma bolha, nós que somos tão palhaços que sequer de maquiagem precisamos para ainda continuar outro minuto na virada do relógio e seus ponteiros estrangeiros. A boçalidade de estar aqui é estratagema sem base. Engalfinhamo-nos em estratégias luzidias apenas para esconder o pau de galinheiro em que há muito estamos empoleirados. A menor parte de nós é um crepúsculo de morte adiada. Ao recebermos a notícia do falecimento de um amigo, abrimos as páginas rotas para confirmar: hoje ele, amanhã nós. A hora é espinho e recende à merda. Os projetos viraram véspera. No abutre que voa, voa nosso último assobio ao subir a escada, antes de encontrar a cozinha numa mixórdia pelo derradeiro assalto. É um pio acreditar em contato salvador. Nascemos para a hemorragia contínua: tudo de nós se esvai à medida que os ossos enlanguescem.

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