Paredes

Olho as paredes. Procuro adivinhar o que escondem.  Há as orgulhosas, de aço. Há as imponentes, de vidro. Há as simples, de tijolos. Nestas, os regos da chuva criaram a caligrafia tortuosa do tempo que as completa e as desnuda no vento de passagem. Em que medida são ninhos ou arenas é impossível  dizer. Atrás de cada uma, a carnificina ou o abraço, a desorganização do corpo ou o punho férreo a impor a única direção aceitável nesta época de condutas tramadas em salas de estúdios. Algumas vibram, outras estão aquietadas há muito. Se bem focadas, tremem por alguma coisa indecifrável. Em que horas estarão abertas para revelar seu terreno repleto de marcas de pés e mãos? Talvez nunca. Os homens gostam muito mais de se esconder do que revelar suas tramas de sobrevivência. Diante das paredes penso: será que só eu tenho o avesso desdobrado à superfície para intromissões que gostaria de ver distanciadas? As paredes desconfiam de meu olhar e impedem a distração de quem só anda por andar. Há as janelas, claro. Contudo, por que vivem tão cerradas?

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