Julgamento

Em sua frente, o prato. As moscas embicadas ao redor. A circundar o prato, pequenas manchas de cinza dos muitos cigarros sofridos entre lábios que se ressecam mais e mais, num ritmo tal qual o do trem em plena madrugada. O homem se desconhece. Nada de levar em conta as camadas interiores em que se enterrou faz  muito tempo.  Põe os olhos no prato: alface esverdeada, réplica perfeita de um vômito murcho, tomate a luzir no óleo pragmático de qualquer cozinha. Ele tem certeza de que a Terra mudou de rotação: a paisagem na janela modificou-se muito desde ontem. Ou foi construído um muro durante a noite. O gato vem aninhar-se a seus pés. O homem arrepia-se. Qualquer organismo vivo lhe provoca ânsias e julgamentos precipitados. Levanta-se. O cigarro entre os dedos. Tremula na intensidade de uma mariposa que já deixou as asas na chama da vela. Lentamente dirige-se à gaveta da cômoda, onde guarda os escritos da  mocidade. São muitos cadernos e outras tantas pastas. As bordas amareladas por este onipresente anão de botas. Ao acaso, relê qualquer texto. É extremo o pecúlio da paixão, o desarvoramento da mente a explodir em encontros com o nada. Difícil reconhecer-se naquelas linhas. Em que palavras ficou seu rosto? Em que tom a lisura da vontade acertar? Mistura cadernos, cinzas, restos de comida. Pensa que a única colagem de elementos díspares seria um sobreposto a mais nas múltiplas tentativas. O óleo da salada (nos dedos) penetra fundo nos velhos papéis, ou pouco de brasa deixa-os chamuscados. Se endereçasse a uma editora, sob pseudônimo pomposo? Desacredita de teoremas euclidianos. Houve uma vingança em algum momento, quando a corrente partiu-se e ele ficou à deriva. Recosta-se na cadeira e assim mantém afastados os papéis. Que nojo! Que borrões ilícitos! Que natureza travada no vagalhão de tantas noites! Arrasta os chinelos pela cozinha. Coça o peito com certa brutalidade. O momento passou, sabe disso, e nem estava nele. Cavalgou um potro inexistente. E nem pode reclamar de feridas, porque estas foram-se desmanchando aos poucos num leite azedo, arremedo de suor. Na mesa da sala os textos foram espalhados com muitas de suas palavras ilegíveis. Os garranchos, as correções, as notas à margem, cada item é um labirinto de Dostoiévski. Que admirava e hoje deixou de ler. É em si o útero, o esperma e o óvulo ressequidos sobre um tampo de mármore hospitalar. Cuidado, há chance de contaminação. Os vasos na janela largaram o alerta e decaem em suas plantas mal cuidadas. Ele se refugia dentro da crosta. Deseja cristalizar-se. Sabe que este estágio demorará para materializar-se. Ainda assim, se K. tornou-se barata, muito mais acessível é arranjar-se como pedra, caco de vitral, fosco pedaço de uma xícara quebrada ontem e ainda espalhado pelo chão. É o que ele espera. Se inúmeras vezes amassou o papel escrevinhado, arremessando-o ao lixo, hoje ele é o papel amassado, o rabisco, a cesta cheia de dejetos.

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