Vidro partido

E o êxtase brota das páginas. Poucas páginas lidas entre divagações incontroláveis. Êxtase truncado, sem a fonte cristalina de ontem, sem o maço de propostas se abrir para portas e terraços. E cabeça enevoada luta com suas poucas armas, resiste no centímetro dos palmos e desavenças consigo própria e com o núcleo duro em que se reúnem caroços e fantasmas para decidir o bloqueio. Êxtase de grota, de plantas apodrecendo no porão em que foram esquecidos velhos engradados de mercadorias sem uso e um livro de Shakespeare. As plataformas amplas de um tempo já mastigado (não engolido) em tempo estão encolhidas e dormitam sob feras de pelo eriçado. Difícil dar um passo, porque elas podem despertar à toa e avançar e rasgar as últimas telas resguardadas como herança para o filho afastado. Das poucas páginas lidas, o êxtase quebrado, as costelas sustentando coração e pulmões a funcionar feito engrenagem obsoleta. Êxtase de curto alcance, um reles pigmento na abordagem do cotidiano. Pendurar nele uma fração do custo que é manter-se vivo, atuante como se exige de alguém organizado (e treinado) para produzir. Rever o discurso quinzenal do médico a pinçar larvas e plantas aquáticas do fundo do lodo, do fundo do espelho. Êxtase de poucas páginas, quase nenhuma ideia, o amarelo insistindo em correr pelos dedos. E depois? E depois? Enfileiram-se os dogmas da sombra e obrigam a tese cinza a defender a postura dela diante de uma banca de iletrados.

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