Dizeres

O que há para dizer despensa mistério e não requer seriedade. É assunto do mundo dos bares, dos bailes. Está na boca do camelô quanto na do deputado, na mão do insurgente, quanto da negra fraca como palha puxando seu carrinho cai-não-cai de montanhas de papel. O que há para dizer é simples (complexo) feito um grilo ou caracol. Deixa de lado coroas, diademas, diplomas de cidadania e os aveludados corredores dos burocratas. E dizemos com as sílabas todas, e o sabemos desde há muito tempo, mesmo não sabendo, não havendo clareza, nem disposição para agarrar o corpo da forma com garfo e faca – e depois vem bom trago de vinho. O que há para dizer, agora, amanhã, sempre, na caverna, na praia, no ar, nos monturos urbanos destas impossibilidades oferece a todos a mesma compreensão, pois no seu nó não se cruzam vozes polissêmicas, nem há camadas de palimpsesto para desgovernar a mente em direções outras além desta: o que há para se dizer em qualquer ou variado tom é: nada vale nada, e viemos sendo enganados pelo sentido do sentido desde o primeiro vagido.

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