Teu mapa

Eu precisaria de um mapa que rodeasse tuas mãos e não me deixasse perder o ritmo que elas têm. Seguro neste sentido, recolheria o fundo da vida e sua lama revitalizante onde se esconde o segredo dos começos. Nada mudo e com palavras de chama acesa posso ganhar a calmaria do cotidiano e nele rebuscar o panorama de sinônimos para tuas mãos e as minhas nelas. Não haverá o gélido talo sem corola e sim a aprendizagem mágica da profusão de versões, o canto inquieto do azul, a espontânea maestria das águas trazendo ao nosso centro cada barcarola em que o dia é germinado. Inundo-me com tuas mãos, farei a partilha de homem adulto: te dou a lírica, me dás a música. E no encadeamento nossos futuros serão lembrados como este passo de agora, este momento, este pontilhão. Tuas vestes soltas a destoar nas cores acordarão em meus olhos uma aventura de harmonias e com o mapa de tuas mãos ouvirei os murmúrios da realidade, eu os entenderei, até marcar o compasso necessário para a úmida raiz amadurecer sua promessa de jamais ressecar-se. Cubro os projetos no escritório com as tuas mãos, cubro meu corpo, meus olhos, para enxergar melhor cada nicho em que deixei algo de mim. A amplidão do mapa não será arbitrária. Sei que terá nossa medida, nosso novo encanto, a transfusão em pequenas porções de goles verdes a por entre nossos lábios o mesmo pomo doce que ontem fora perdido. Na nascente dos rumos, a nova demanda: teu mapa. No quadrante deste mundo ainda feito de cimento e aço, as nossas vozes em silêncio tangendo a rosa dos ventos para que cada porto se mova para onde devemos ancorar. De polo a polo, iludiremos as sombras, sem tédio, sem fuga, sem cansaço. Chegar a novos platôs é o que me importa com o mapa de tuas mãos, tua figura leve, teu exílio agora interrompido. Os pássaros cadentes reerguem as asas e podemos contar com eles em nossa malha de sentidos transpostos para a verdadeira direção. E o avesso se torna o primeiro pano brilhante para nossa mesa, em que deposito a pedra sólida destes versos de um sábado à tarde em que te penso. Reconheço que teu mapa é transportável para muitas tarefas que ainda não sei. E num conjunto de cores e tons ele me ajudará a conquistar a mina, o feitiço branco, o coração do cavalo indômito. Forjarei o revestimento de cada latitude e longitude e pingo a pingo, gota a gota, no teu mapa reencontro o que sempre me fugira. Nada estará borrado. Não haverá cruel vertigem. Despistaremos as canções de cassandras. No restaurado fulcro do chão batido rumo ao teu peito, observarei tua boca e nela a vivacidade a celebrar o inadiável: estamos a cometer um encontro e é radiante ser acossado para teu círculo. As tuas referências estão no mapa. Eu as vejo. E sinalizo em meu poente o alvorecer. O piso de mosaico segura meus pés para depois soltá-los nas linhas cruzadas do teu mapa. E desta forma, a espinha dorsal do corpo e da fala arderá o verde rubro do contato para nos abastecer do pomo, da letra, da vigilância vidente. O cambaio em mim terá tua unção e farei jus ao teu mapa, pois outra coisa não tenho realizado nestes últimos séculos senão procurá-lo. Eis teu mapa. Eis os víveres. Eis a flutuação. Não me perdi. Não me retalhei. Não atravessei a porteira errada. Sob a luz apreciável de teu mapa, descanso a matula, meus cães, os vales sem fundo. A trajetória derrubará os muros, aqueles derradeiros, os insistentes, os que brotam por iniciativa dos brutos e nada importa o quanto não nos toleram. Que seja palpável a mansidão da vida, conforme diz Fernando Canto. E o que tardará? Ainda não sabemos. A ramagem do teu mapa se distende para os ossos de meus braços e eu a umedeço com minha esperança de jamais voltar ao antes. Quero a grande praça, o mirante, a paina leve aromatizando a cor do dia. Vasculho teu mapa na milimétrica edificação do que pode vir. O inevitável. O selvagem. O insondável. Na aragem dos milênios, faremos fortes nossas cordas para que enfim toques a música que é tua magia primeira e me comoveu no teu primeiro gesto. Teu mapa é a reserva orgânica, a grande floresta, o duto das resinas. Teu mapa. Aqui e agora. E nós sob telhados garimpando a cortesia de que precisamos para mantê-lo vivo. As vozes da noite como serão? Acalantos. A fantasia da completude como será? Inebriante. A carga da tarefa sem farsa que contorno terá? Floração. Com teu mapa, nenhum outro mundo precisarei inventar. A avenida da madrugada enluarando teus cílios repletos de umidade crucial para a caminhada e para a subida. E a flor frágil criando espírito em nome de nossa cercania intricar-se em mescla inseparável. Gastaremos nossos fluidos no segredo de nosso estado e tua leveza brindará cada batuque que ouvirmos, uma vez que estaremos também em paisagens avessas a nós. É rígida nossa coragem, não tenho dúvida. O futuro dispensa ruínas e sanatórios. Cada signo do teu mapa não será desidratado por animal algum. Levarei comigo a singularidade de tua voz ouvida a primeira vez. A primeira vez do encanto, do brilho, da entonação precisa. Cavalgaremos acima do tempo e do espaço, experimentando este maravilhoso pavor que é sentir-se vivo, segundo Heloísa Seixas nos ensinou. E eu que sempre fora tão forçado a resistir, hoje quero estar entregue, porque esta lição eu a absorvi de Noll e nela acredito.

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