Masmorra enodoada

Havia uma história difusa batendo nas janelas. Era cheia de nós. Repleta de facas que cortavam em carne viva. Não deixava tranquilos os olhos que percorriam a apoteose das maravilhas a desfilar como é comum nos finais de tarde. A história espalhava-se – magma vivo, muro de interditos. Ficava impossível abrir-se ao ar, querer um palmo de espaço, pois ela fechava tudo, mestre do encurralamento e da ceifa e do pescoço no laço. Esforços para bandear-se para outra região de recomeço nem adiantavam. Tudo tinia no seu rubro azucrinar, sua febre de veias grossas. A cabeça precisava sacudir as sombras, livrar-se das volutas girando em torno do mesmo eixo, do castigo inútil de cair contra o peito. E se a beleza se fazia apelo vivo, a história, afogando as janelas, cortava o impulso primeiro para rebater em cinza a véspera da alegria. Nada a suportava. O enodoado de suas cordas prendia os membros por horas na mesma posição, até tudo ficar dormente na palavra muda. Como superar o contorno e espinhento a turvar a visão? Como reagir com um mínimo de dignidade ao flagelo? A beleza se distanciava, se perdia, e a vida canalizava-se para estrias repletas de pó até tudo perder o movimento, o nome, a personalidade.

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