A quarta marge

Rejeito a pretensão a coisa nenhuma. Sequer à palavra em teia de prata e latão, com centros de diamantes desgastados pelo uso e sem superfície marinha para refletir o porejar dos sonhos ao longo dos cílios. Meus lados humanos e margens animais foram traídos pelo jogo cujas regras conhecia e desprezei. No centro de todos eles ficou não o pai da terceira margem e sim o filho traído pela quarta, uma vez que ele não tinha a quem dar descendência. Seus trastes guardados em volumes de barro foram levados pelo último dilúvio e nada de bíblico restou para salvar uma página sequer de suas cantigas. Meu olhar vê paredes, instantes de outro tempo insurrecional e pegadas que deixei de lado por imaginar meu corpo maquiado em outra natureza de barro. Raios e flechas cruzam seu espaço tirando chispas das parcas armaduras, até os frutos amadurecerem para cair na lama, à devoração das larvas. As florestas devassadas foram encantadoras, até mostrar seu óleo em veneno, até transformar suas flautas em eco do que acontecia no alto da montanha. E numa tarde de concentração, dei com minha pele queimada e meu estatuto tão arraigado em ruídos de pequenas peças de inutilidade, que compreendi a mecânica dos cartórios de se encherem com pastas de papelão – ali não apenas arquivam o que foi, a vida passando, como, da mesma forma, manipulam o terroso ofício do amanhã, momento do rosto enfiar-se sobre máquinas que não entende. Revi pasta por pasta e compreendi por que vivemos numa sociedade de gadget. Nunca mais abri a voz para confirmar meu traçado. Mesmo por que, se ninguém ainda absorveu a terceira margem, de que modo mumificarão a quarta estes especialistas tortos e mesquinhos a insistir que texto é corpo para autópsia? As cartas girando em tantos desaparecimentos são a doença do meu olhar. Meu olhar. Se vira para cá ou para lá encontra o mundo monolítico com a mensagem do “enterre-se” e, de preferência, vivo. Eu atravessava apenas irrealidades e nada sabia desta letra fechada. Nem queria apoio em autores que antes foram meu roteiro. A mim bastava-me espalhar-me pela praia do mundo, aquela encosta sem fim, na linha do norte e do sul como um tanto faz. Parti para os deuses, quando eles não queriam minha paixão. A fumaça do sacrifício tão somente rastejou pelo solo, embolorando as pedras, sufocando as plantas já não grande coisa. Essas contorções das esquinas vi restituídas a mim, em outro porto ou rosto, o que não mais poderia alcançar com meus braços – braços envoltos em névoa sem fonte, névoa líquida, líquido brotando de meu olho há muitas noites sem conhecer a fuga inebriante do sono. O batimento cardíaco rangeu no peito obscuro e vi a fúria chegando para repassar em secura as velas arriadas. A manhã revelou-me pilhas bem montadas de peixes estragados e pescadores a contemplar aquele azul prateado sobre o qual incidia o sol e com o qual nada, nada teriam a fazer. Abracei o limo e a cinza e com a fome a me percorrer nu, nu fiquei nesta história sem hipótese de retorno. E com uma certeza: a canoa permanece cavando seu caminho na água muscular, cobrindo os insetos da quarta margem. E eu durmo, enfim, no pasto, entre cavalos embriagados de correria

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