Das folhas

O canto das folhas silencioso desce pela brisa. Ninguém por perto para ouvi-lo. Os corações, nesta hora, se resguardam, sem temor, para o que há de vir. E o que há de vir pode ser sombra ou poeira de luz, relógios enlouquecidos em sua dança e rápidos venenos capazes de cortar a vida pelo cerne. Em meio aos que respiram, talvez alguém anseie pela morte para fugir da campana deserta e mergulhar em definitivo na viagem ao fim. Somente este alguém mostra alguma ansiedade. Ausculta suas veias, reconhece nelas o pulsar de relógios cansados e quer parar os ponteiros, para que a série de tormentos desapareça de seu campo de ação. Percebendo o andar das horas, o cicio das folhas, o pretenso suicida aspira pelo vinagre e pela pílula, pelo corte ou pelo sufocamento, ainda que não descarte a vida se prontificando a dar término a tudo. Em seu jogo de esperar, ele dá à vida mais uma hora e nesta hora senta-se no sofá, diante de um quadro a mostrar cena de pescadores, e concentra-se na rede. A vida é teia. Sempre gostou desta imagem – não haveria centro, e os filamentos se distendem pelo mundo de forma mais e mais aberta e o continuum abriria ao delta inconcluso de oceanos de espectros, realidades virtuais, físicas projetando-se por meio das fendas das sinapses, em perpetuações que são princípio de outra relação – . A rede dos pescadores. Quando ela se romper, tudo será tido como finalizado. Os peixes de prata na encrespada areia baterão suas guelras até o completo silêncio. Aí haverá paz. O azul do fim. A canção em nota de pauta derradeira. E de novo o silêncio e todas as barreiras ultrapassadas.

Postado em por autor in Prosa poética Deixe um comentário

Comente