Quase

Alguma coisa cresce para o fundo de mim, ao fundo vai, serpente de plumas negras cobertas de escamas serosas, alguma coisa vai, cresce ao fundo, duplica-se no fundo, penacho de sol lubrificado pelo escuro em luz pontiaguda. Não sou o marinheiro audaz, diz a canção, eu também, eu também vejo o navio rubro e não o nego, traga-o para mim, ao fundo do fundo, ali onde dorme o sono, no ninho da ausência, ausência torta, o taciturno traço, o tufo marinho de mariposas em asas debatendo-se dentro de mim, quase lá, quase junto à superfície da camada de plumas e no fundo revestida de escamas soltas pelo sol, eu quase, eu no fundo, no fundo de mim, metade que cresce e em que cresce o estandarte da onda e do navio, minha serpente enroscada, estirada no breu de minha entranha, em ânsia eu, nada de marinheiro audaz, nem na nota da canção martelante, apenas aquele que espera que a dor cesse e cesse fundo pelo fundo deste século de duração mínima, quando os círculos planetários se rompem na lua da ausência. Havia em mim um caudal de ternura represada para escoar na direção de alguém sem audácia para aproximar-se e ser. A aproximação se deu apenas junto ao pão cotidiano. Foi um quase. Alguma coisa que crescia para o fundo de mim com a série de plumas eriçadas estancou num repente de discurso comum, sem audácia, ficando no quase, e no fundo de mim estanquei o caudal quase aberto, quase todo, e em mim a luz da lua da ausência estampou a luz redonda da volta ao mesmo círculo completado após o quase.

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