Pablo, menino de Cataguazes

1.

A gente atravessa cidades, vales azuis entre montanhas que se perdem quase no além dos olhos, e mergulha num calor puro óleo e chega nos corredores do colégio – ao redor a cidade brame. O silêncio é um barulho pontuado de gente, de carro, de bicicleta. Ali, nos corredores, há quietude, sombra de plantas que confabulam, imensos baús a resguardar segredos de cabelos ouriçados e unhas pontudas. Estamos todos no salão, esperando as magistrais palavras. Estamos todos reunidos, porque discutimos não o grande destino, mas tão somente os gestos esparsos, concentrados em páginas escancaradas, donde escorre veludo e fel. Lugar do saracoteio de autores que nos sustentam. Então, à voz do conferencista que galopa por molecagens e pilhérias, encontro teu sorriso à beira do precipício, a trocar sombras comigo, a me dizer do pluripresente corcoveio. E o mundo todo se refaz em mistério bom de acolher, de ninar, de plantar em cada ângulo das mãos.

2.

Este barco entre estas montanhas, o que é? Este rosto ossudo, de nariz de precipício. Esta boca tão larga, feito cacimba a receber o sol e a dar o sol. Este coração de 13 anos sob a camiseta, campo fértil de inscrição qualquer em torno da arte, da vida, da coisa nossa. Estas mãos tão amplas, espalhafatosas. Este jeito meio camelo angelical. Esta brandura que escorre pela voz e vem à arena dos meus braços cantar o exato perfil da sombra mais exata, sob a qual escrevemos duas ou três curvas de nossas vidas. Este arcabouço que aos poucos se desfaz e vem da beira de um rio, onde reinventas a infância que não há mais e ainda insiste em sua beleza, nem dá mais mostra de montar o ritmo de ontem e ainda insiste em sua melodia. A prospecção de asas que se desfazem no éter. O fluído ardoroso que escapa deste barco aéreo a me singrar e a me faltar. A dizer pra mim frases que recolho neste feixe de dedos que jogo no ar de Minas pra sepultar o que sequer foi erguido da semente. Sei que tua morenidade mancha minha pele com a grande falta. O que levarei ao Sul?

3.

A garra que me ataca não é nuvem, não é rio. É fogo de voz calada, osso de silêncio em onda. Morte de vida intensa e vida de morte em camadas de horizontes superpostos, onde o coração é quina adunca pra refazer o infinito. O infinito se esconde em tua presença de absoluta ausência. A garra que me traça, borda ocos em meu discurso. Singra meus navios de dentro e do meio com sílabas de tanto tropeço. Eu me amarro em cipó de breu. E me estatelo nos amplos campos que me atrevo a aninhar no peito, nesta hora. E me envolvem em seus apelos, nesta manhã. A garra que me arca vem do século logo ali, antes da impossibilidade, quando o menino antecipa os deuses e estes criam o obelisco pra iluminar e cegar e arrebatar. Eu cheguei e as amarras dizem o meu som. E respiro entre rios de fagulhas pra nadar entre os banquetes de crocodilos famintos e toda vez convincentes, ainda que lerdos no peso do lamaçal. Eu cheguei e o meu discurso repete o mesmo espanto, circula a mesma gema, decanta o crustáceo do não. Como não ficas ao meu lado amanhã e amanhã e no depois, que encontrarei no Sul.

4.

Há um gesto esparso neste amplo espaço a fustigar a luz e o som do sol. Por ele, as raízes tremem e trazem ao pó dos lábios uma palavra só farrapo. Se andássemos por este mundo, pressentindo sombras e profecias e barcos geminados com roteiros, diríamos às praças onde nos recebessem que o corpo dói na mesma medida de cada passo, no mesmo tom do seu impulso. E por aqui andou Rosário Fusco e tantas tormentas criativas que, ao raiar do dia, o que vi me encheu de luz em espiral, no veludo da cegueira. É pra eu nunca mais esquecer a condição de fardo a ferver no sangue. E depositar na carótida os olhos desta meia chegada, desta inteira partida, deste fosco rosário de bugigangas que atravanca o ar de minhas correntes. Elas se estendem até tua casa desconhecida pra mim e me trazem dali a fôrma que te fez e é um grande vazio nesta hora de dedos tortos tocando a parede em busca do retrato. E ele vai doer, vai doer, vai cantar sua vagueza por tantos dias que nem sei.

5.

“O que a memória ama fica eterno”.– Adélia Prado.

Cataguases, dezembro/95 , durante o Proler

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