Bailarino

Bailarino fui e sempre dancei em frente às grades, nos pátios das feras, na boca da noite de revés. Dancei no avesso do tempo negado, aquele tempo de transformar pérolas em porcos, dancei por ali, para tirar da noite a fatia do creme mais azedo. Bailarino fui e sempre bailei no oco do olho do rei, na margem das coisas desencontradas, com pés e mãos amarrados no derramado da hora. Desencontrei o mar aberto e o mar fechado, os navios nas ondas vesgas, os peixes de espada em punho escrevendo no ar mensagens que desprezei. Elas ultrapassavam minha leitura e pus-me ao largo, sabendo que dançar é arte de pouco caso. Bailarino fui e sempre bailei na curva da reta geometria, ali onde os garotos mostram seu frescor de quem vem para a vida com todas as curvas pronunciadas em alfabeto silencioso, em musgo de ocaso, como quem grita um hino do tempo no tempo de ser firme a cada hora e se dizer belíssimo, porque é deles este destino. E se Sophia Breyner repete Rimbaud, eu faço o mesmo quando a reescrevo: “por delicadeza perdi minha vida.”

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