Pequenos arabescos

1.

As noites afunilam-se pelas bocas e os homens bebem estrelas. Ficam embriagados de luz e dançam nas ruas, formando nova constelação de pequenos sóis.

2.

Entre os dedos da mão do velho, a aranha tece suas teias. No centro de cada filigrana, deposita minúsculo diamante. Com as vistas embaçadas, ele percebe um longínquo brilho no interstício dos dedos, mas não sabe avaliar do que se trata.

3.

Os muros pousam de leve sobre as calçadas. As calçadas estiram-se brandas ao longo das ruas. As ruas encompridam-se suavemente em curvas lentas e serenas. Os homens pisam duro.

4.

Genet criança meditava numa privada, ouvindo os sons do mundo. Depois, fez de seu corpo uma longa, contraditória e ininterrupta festa, passando pelo circo, pelo cinema, teatro e literatura. Em criança, eu subia até o galho mais alto de uma goiabeira, onde devaneava, pensando o mundo nas formas e cores que via. Depois, metamorfoseei meu corpo num constante e ambíguo e intermitente silêncio, rede de lacunas, intercâmbio de vozes nulas ou mudas.

5.

A melosa canção vinda pelo rádio dizia que o amor nos dá asas. Amou a primeira vez e perdeu as pernas. No segundo amor, os braços. E assim por diante. Até que se viu reduzido a um pequeno coração batendo solitário no meio da praça.

6.

Devorou fatias imensas de silêncio. O que não fez dele um homem mudo. Pelo contrário. Suas palavras voavam pelo mundo a toda hora. Mas lhe faltava algo essencial: o tempero do sentido.

7.

Na distância, os cães ladram, tornando a noite mais comprida e aveludada. É como se fossem naus sem rumo, no desespero por um porto onde nunca ancoram.

8.

Amou tanto, mas tanto, que seu coração cresceu de forma tão desmedida que não podia mais entrar em casa. Passou a vagar pelas ruas. Não faltou dedo para apontá-lo, acusando-o de vagabundagem. Acusação que ganhava mais ênfase quando alguém lembrava: e tem diploma de agrônomo, o malandro.

9.

Ouviu de Capitu algo muito sutil, dito ao pé do ouvido. E resolveu calar-se para não estragar o prazer dos que imaginam ver nela um enigma indecifrável.

10.

Quando, na Praça da Espanha, encontrou-se com Dom Quixote, compreendeu porque a vida toda fora chamado de cabeça-de-vento.

11.

Antes de deitar-se, K. borrifou a casa com vários inseticidas contra barata e outros insetos. Ao despertar, sentiu-se com a mente leve e uma inesperada energia alegre tomava conta de seus membros. O corpo bailava sem o comando da vontade, na mesma dinâmica do vôo da mente. Talvez jamais se libertaria do sentimento de exultação.

12.

Ele gostava tanto do mar que passava o ano inteiro pensando nas férias de verão, temporada de praia, lazer, vida mansa. Naquele ano, a ressaca foi violenta e arrasadora, avançou por toda a orla, levando inclusive a casa dele. Que não se aborreceu. Preferiu compreender o estrago como um sinal das águas: elas também o amavam e queriam levar dele algo para sempre.

Assim, roubaram-lhe a casa e a esconderam no fundo de si mesmas.

13.

Pisava tão levemente que seus passos nunca eram ouvidos. Um dia, bebeu além da conta e chegou em casa aos trambolhões. Seu filho pequeno, percebendo a mudança de atitude, comentou: Ih, o pai hoje errou de tom.

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