Marcelo Sandmann - Poeta

Lendo o livro A fio, de Marcello Sandmann - 7 Letras, 2014 - fui levado por ondas de agradáveis sensações, na certeza de estar diante de uma obra original que me confirma os trilhos de criatividade aguda deste poeta. O primeiro poema já diz a que veio o autor: síntese, ironia, brusquidão, linguagem seca. Não ao lirismo e uma voltagem imagética de algo que rompe o bom-mocismo que coroa boa parte da poesia que é feita Leia mais

POESIA RACIONAL

ESTÚDIO REALIDADE Rodrigo Garcia Lopes 7Letras      129 pgs. O início de Estúdio realidade é constituído por poemas enumerativo com pitadas surreais para mostrar a incomunicabilidade do mundo ou aquele fechamento que Bakhtin vê em todo poeta, quando este submete todas às vozes às suas necessidades enunciativas. Com um olhar para o cotidiano trivial como matéria de poesia, quando esta parece contaminada pelo tom  prosaico, Rodrigo Garcia Lopes tece uma poema cerebral, contido, sem nenhum derramamento por um lirismo Leia mais

A MAÇÃ ENVENENADA - Um romance-móblide

A MAÇÃ ENVENENADA MICHEL LAUB Companhia das Letras           199 pgs. Tensão do princípio ao fim. Porque há uma fatalidade retrospectiva pairando no ar. Desde as primeiras páginas sabemos que uma desgraça ronda o narrado e nossa atenção é atiçada na busca do que será este fato. O motor do romance gira em torno de um garoto de 18 anos. Morando em Porto Alegre, ele serve no CPOR e está dividido: faltar um final Leia mais

HEMINGWAY EM PARIS

HEMINGWAY E PARIS : um caso de amor Benjamim Santos                                                                                                 Gryphus                                   Leia mais

JEAN GENET POR EDMUND WHITE

GENET: uma biografia Edmundo White Record         782 p.   Edmund White tornou-se conhecido entre nós pelo menos por três grandes romances: Um jovem americano,  O quarto vazio  e O homem casado. Ele serve de modelo para aqueles que, no Brasil, fazem ou tentam fazer literatura gay, que pode ser gay, mas não é literatura. Não há, nesses livros brasileiros, prospecção nos conflitos dos personagens, não há trabalho burilado com a visão de mundo, não Leia mais

A reles toada que se afigura nos dias ou A banalidade

A marca de um desconforto retroativo mina seus esforços para ocupar-se com as lides diárias, aquelas que a priori dariam sentido à sua vida. Macerado e errante, ele caminha pela casa, faz isto, faz aquilo sem que o rangido rouco se desprenda das dobras do interior. Em cada desvão parece apontar a cabeça de algo que irá desintegrá-lo. Anéis de ansiedade demarcam o terreno, e ele é sugado para uma pastosa convenção de inquietações e deslocamento. A mente arde sem ater-se a nenhuma meada prática. Desde os livros da semana para resumir, anotar, inscrever neles seu parecer, até as limpezas ordenadas de sábado, tudo são felpas de aço na engrenagem. Esta não vai rasgá-lo por dentro, mas amortecer a perspectiva de um dia de produção. Cada gesto se vai desacelerando e, quando percebe, está exausto, presa de uma aversão por seu cenário, com fibromas no ânimo, em estado de malignidade a transfigurar a ocupação, num agreste exercício de tentar ser livre. O areal das paredes solta-se sob seus pés, tudo reflui exato para o ponto de onde quer afastar-se, tudo chama para a intensificação de um nome, um porte, um jeito de ser distante do seu jeito de ser, um afrontar a vida, um colocar-se no centro, ainda que nada tenha centro. Neste festival de miragem rotulado de cotidiano em que o chão o mais das vezes está no nível da cabeça. A senda planejada mostra-se apunhalante e o intermável rodízio em torno do mesmo toco/corpo aturde-o, e ele se vê reciclando as camadas de sempre – o mesmo gosto – o mesmo cheiro – a mesma textura – a mesma latejante ausência que cega e indispõe e trava e rompe e corta e embrutece.

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Os preços da vida
são altos não é camarada?
Estás resolvido a não pagá-los
Tudo bem
Correta conduta
Pega o rumo do Vale da Morte
Procura um túmulo em caverna
Talvez haja um terceiro dia
Te levantas envolvido em
panos brancos com as marcas visíveis
Os cinco buracos
Faz um milagre
Te transforma em pão e peixe
Comida para todos
Com a fome saciada
merecerás ser adorado
Na seita nova
serás o Momo Artaud

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A mancha e o sal do corpo
profundo por persistir nas palavras
do desencanto
A intimidade pública
continua a diáspora para
testemunhar o anoitecer
O anoitecer de árvores
que fazem da chama frágil
a prédica de um cartógrafo
O segundo andar anuncia a derrocada
de novo planeta
O olhar da linguagem
sobre as mãos
confirma a madrugada sem nuances
A mancha sobre o peito
nada aproxima
nem os lábios têm intenção clara
O sal do espaço acossa
certa circunstância do gesto
Renovar a hora noturna
saudando com cautela
o amigo cuja fertilidade
transforma este texto
(Releitura de João Maimona – Angola)

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O tempo anômalo
fere as vidraças
parte os jarros
Que razão tem ele
para tamanha estupidez?
O tempo é vesgo
e voa torto
Assim não escolhe
quem vergar
Age com os envelopes em branco
passa ordenações
com plasticidade de desalento
a cada figura
a cada matéria que toca
Que é transitório
todos sabemos
Seu tópico de relevância
é o espatifamento
Trunca a palavra no pescoço
o amálgama que fornece
não é seminal
Nó e o que dá
E não desata
mutila e acossa
e incuba a morte
seu fruto predileto

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Escrevo: deus é zero
Nenhum lado do outro lado
Não é monarca
apenas estigma
de infância mal alinhavada
É galeria
de macacos amordaçados
Seu alaúde sem cor
é exasperante engano
a quem espera música
Na carne dele
besouros de opacidade
traçam enigmas
fáceis de resolver
Não é caminho de esboço
é beco de rapazes sem raiz
é gonzo enferrujado
a gemer para perturbar
nosso sono
Deus é nada
e cata pulga no meu cão
e sacia a ânsia deste
de ter dedos entre os cachos
de seu pelo

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Tenho pra mim
que vou contar meu poema
Fazer como faz o pintor
em sua tela:
ouve a tinta o pincel a forma
Cumpro a voz do poema
e talvez me cale
O pintor também emudece
no abismo de treva em quadro
Sei lá se convenço o poema
a me ouvir
Não ser retrato
Nada de dor e que tais
Ele falará de um adeus
(breve) coisa assim pra
quem se foi há algum tempo
Cifro o poema no ritmo
de pé quebrado sem atadura
Nada de rima metro de ginástica
Lhe dou a voz que rouca
é mina pra tudo
que tem fim nesta hora
Para Carlos Dala Stella

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Me pediram para ficar em silêncio
Recusar a lâmina invencível
da palavra
e na penumbra mansa
repousar em silêncio
Em silêncio desfolhar os livros
Foram persuasivos
Me mostraram correntes emudecidas
para eu permanecer emudecido
no assombroso silêncio
Que eu me embaraçasse com o silêncio
e deixasse em desuso a palavra
Que eu não falasse
Que me infligisse o silêncio
para o silêncio morar em mim
Chancelar a porta cerrada
contra as palavras
Cobri-las com o manto de Bispo do Rosário
Sem rajadas de realce
me mantivesse numa
espécie de esclerose
em silêncio de permanência dura
Sem acalentar o discurso
Que adotasse a mudez
o gesto turvo de quem não é
Em silêncio
Me pediram isto
Me pediram que na invernia
desse as costas às palavras
Açoitado por ferrugens
janelas corrugadas
grandes extensões de corredores
Me pediram
Sem alicerce eu ficaria retesado
num silêncio de corredor sombrio
Assim deste jeito mudo e calado
desatinado no silêncio
Que pelas vertentes
do silêncio eu deslizasse
Numa forma de negar-me à palavra
da mais branda à mais eriçada
e do silêncio fizesse meu lívido cocho
pastasse ali e chafurdasse em silêncio
e no insondável nada buscasse
para nada falar
negando a palavra
evitando bloqueando a palavra
Que fugisse da atividade febril
e obsessiva da palavra
Me deram o silêncio para guardar
Nos sulcos de Casais Monteiro
eu nada dissesse
num longo corredor
nem a ocasional palavra
O silêncio sempre
exumasse meu peito no seu ser
alagado pelo silêncio
Que fosse embora da palavra
A coreografia do silêncio
sua medula seu núcleo seu tutano
E todo me encolhesse
usando cachecóis de madeira
e nada soasse vibrasse pulsasse
Eu sem força adesiva com a palavra
Me pediram isto
para eu permanceder no oceano
do silêncio
Para me calar
e fosse cedrino o silêncio
Deletar o visco da palavra
a mucosa da palavra
o ranho da palavra
Se da palavra vivesse
a partir daí com ela
cortaria o vínculo
longe do artifício
da coleante submissão à palavra
na real perspectiva em abismo
Que cessasse a dança do verbal
Que não dissesse nunca mais
sem afinidade com termo nenhum
sem glosa mote dicionário
analogia associação diálogo
Me pediram para ficar em silêncio
Então este texto

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Tudo o que rasteja voa
Nada mergulha sobe desce
nas entranhas do universo
tigres corças odores insetos
árvores copadas árvores mirradas
Cavas grutas cumes encostas
lugares plenos de gente desertos
cidades nervosas ou langorosas
prisioneiros marinheiros cozinheiros
sombra e luz pavor e alegria
as estações do ano e seus meses
a continuidade das ilhas
o pipocar dos arquipélagos
estações de trem ou rodoviárias
ruas ruelas becos esquinas
Os garotos os rapazes os moços
as visões em tom maior
as visões em degradê
as visões dos alucinados todos sãos
Tudo precisa viver e pulsar
A ampla liberdade irmã sutil
da magia de acordo com Al-Shâbbî
Na desmedida com a morte
Aqui os terrores da noite
as amplitudes azuis do dia
aqui na minha mente

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Atordoado
o bicho come o bicho
Não há festim
nem gosto
Há matança
músculos estraçalhados
O sangue negro jorra entre os ossos
Os nervos rompidos se esgrouvinham
As presas rompem
trincham
esfacelam o outro
O outro com as vísceras expostas
ainda respira
Sorvos de arranque
O outro sempre vítima

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O tiroteio acabou
A cidade está calma escura
Parece que as pessoas a abandonaram
– Ilusão
Estão escondidas e tremem e suam
Pressinto a presença delas
A lua gigantesca
reproduz as ruas mortas
Decalcando-o
assim me rendo a Zaniewski

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