Marcelo Sandmann - Poeta

Lendo o livro A fio, de Marcello Sandmann - 7 Letras, 2014 - fui levado por ondas de agradáveis sensações, na certeza de estar diante de uma obra original que me confirma os trilhos de criatividade aguda deste poeta. O primeiro poema já diz a que veio o autor: síntese, ironia, brusquidão, linguagem seca. Não ao lirismo e uma voltagem imagética de algo que rompe o bom-mocismo que coroa boa parte da poesia que é feita Leia mais

POESIA RACIONAL

ESTÚDIO REALIDADE Rodrigo Garcia Lopes 7Letras      129 pgs. O início de Estúdio realidade é constituído por poemas enumerativo com pitadas surreais para mostrar a incomunicabilidade do mundo ou aquele fechamento que Bakhtin vê em todo poeta, quando este submete todas às vozes às suas necessidades enunciativas. Com um olhar para o cotidiano trivial como matéria de poesia, quando esta parece contaminada pelo tom  prosaico, Rodrigo Garcia Lopes tece uma poema cerebral, contido, sem nenhum derramamento por um lirismo Leia mais

A MAÇÃ ENVENENADA - Um romance-móblide

A MAÇÃ ENVENENADA MICHEL LAUB Companhia das Letras           199 pgs. Tensão do princípio ao fim. Porque há uma fatalidade retrospectiva pairando no ar. Desde as primeiras páginas sabemos que uma desgraça ronda o narrado e nossa atenção é atiçada na busca do que será este fato. O motor do romance gira em torno de um garoto de 18 anos. Morando em Porto Alegre, ele serve no CPOR e está dividido: faltar um final Leia mais

HEMINGWAY EM PARIS

HEMINGWAY E PARIS : um caso de amor Benjamim Santos                                                                                                 Gryphus                                   Leia mais

JEAN GENET POR EDMUND WHITE

GENET: uma biografia Edmundo White Record         782 p.   Edmund White tornou-se conhecido entre nós pelo menos por três grandes romances: Um jovem americano,  O quarto vazio  e O homem casado. Ele serve de modelo para aqueles que, no Brasil, fazem ou tentam fazer literatura gay, que pode ser gay, mas não é literatura. Não há, nesses livros brasileiros, prospecção nos conflitos dos personagens, não há trabalho burilado com a visão de mundo, não Leia mais

MARGARET ATWOOD E O ROMANCE-CILADA

O ASSASSINO CEGO

Rocco  –  493 p.

Em seu monumental e revolucionário estudo sobre o romance – Questões de literatura e estética: a teoria do romance – Bakhtin  nos traz uma visão inovadora deste gênero, quando diz que o romance, tomado como conjunto, é um fenômeno plurilingue, pluriestilístico e plurivocal. Não temos mais o  estilo do autor e sim uma combinação de estilos dentro de uma obra que, sendo linguística, tem uma natureza eminentemente dialógica. O romance rompe as fronteiras tradicionais de como era lido e se torna uma arena de tensões e vozes, em que o autor/narrador é apenas uma voz entre muitas.

Propomo-nos aqui, ainda que de forma rápida, uma leitura sob estes prismas do inquietante romance de Margaret Atwood, O assassino cego. Aparentemente, temos duas narradoras, já que o enredo aborda a vida de duas irmãs: Laura e Iris. Laura é a “maluqinha” de uma família poderosa em Port Ticonderoga, família esta que vai do ápice da riqueza ao plano baixo do empobrecimento.

Tudo se passa nos turbulentos anos 30, com a grave crise econômica que assola o Canadá e durante a Segunda Guerra Mundial.

As irmãs, filhas de um rico industrial, veem a família perder o fôlego e o poder, quando as indústrias do pai vão à falência e são compradas por Richard, que mais tarde casa-se com Iris. Esta, no casamento, se vê presa numa redoma em que é tiranizada pela cunhada. Como Iris era do interior, moça simples, de costumes austeros, do dia para a noite está presa nas garras de Winifred que tenta transformá-la numa dama grã-fina, “reeducando-a” pelo domínio completo de suas ações, desde o vestir até o postar-se à mesa, para que ela assuma os modos e hábitos da “alta classe”.

Na aparência, encontramos duas narradoras: uma que conta o presente e o passado da família e outra que escreve O assassino cego, mantendo um tórrido relacionamento com um anarquista fugitivo da polícia. Os capítulos são intercalados por notícias de diversos jornais que fazem referência à vida social e econômica daquela pequena cidade. O romance também nos apresenta cartas, bilhetes, anotações de cadernos, inscrições de banheiros públicos que, por si só, constituem aquele plurilinguismo bakhtiniano.

E de antemão, podemos ver como Margaret Atwood, ao tecer seu romance, está usando aquela diversidade de linguagens para as quais aponta Bakhtin e que são organizadas artisticamente, seja no uso de vozes individuais, seja no sentido de línguas estratificadas com acentos diferenciados.

O romance começa com a morte de Laura num acidente de automóvel. Este fato primordial abre uma discussão que jamais será concluída: Laura suicidou-se? ou tudo não passou de uma falha mecânica do carro que terá levado ao fim da moça? O fato não esclarecido será uma base ideológica para a veneração que cercará Laura depois de sua morte. Esta dúvida e muitas outras permearão as estruturas narrativas do livro, trabalhado com labilidade e ironia, porque “as narradoras” nos conduzem por um caminho que só no final reconheceremos que não é aquele que imaginávamos trilhar.

Iris vive à sombra de Laura porque a publicação do livro desta e seu trágico fim criam uma aura em torno dela, a ponto de transformar o seu túmulo num lugar de romaria, onde seus admiradores constantemente depositam flores, numa espécie de santificação daquela criatura que, em verdade, ninguém conheceu.

O diálogo específico das linguagens do romance, segundo Bakhtin, aqui ocorre com a depressão dos anos 30, com a Segunda Guerra, as artimanhas e tramoias da política, o jornalismo social, a ganância dos empresários materializada no arrivismo de Richard e duas mentes que encaram o mundo de forma oposta: Laura e Iris. Aquela, mais descontraída e solta; esta, mais formal e com uma vida dentro dos parâmetros aceitos da época.

Dialogicamente muito bem tramado o romance, na verdade, nos apresenta uma série de ciladas, e o leitor, despreparado, cai nelas, porque Margaret Atwood tem uma argúcia invejável em criar as várias tramas que se cruzam e entrecruzam no leito pedregoso do romance. É como se este estivesse com suas sondas abertas e voltadas contra a boa-fé do leitor e apenas no final fica revelado que “as autoras” não eram confiáveis porque, o tempo todo o leitor foi manipulado e levado a crer em algo que na efetividade da trama não existe: Laura não é a tresloucada e Iris não é a mulher formal. Ambas são pinceladas por uma única voz, nascida de um único foco sobre o mundo, brotando de um esquema ideológico furta-cor que faz de nós, leitores, o que bem entende. E no final, em aberto, nos mostra o quanto fomos iludidos por aquelas “vozes” que em verdade se enfeixam numa única.

Se Bakhtin afirma que a verdadeira premissa da prosa romanesca está na estratificação interna da linguagem, esta é lapidada de tal forma pelas “narradoras” que nelas o leitor vê figuras antagônicas se movimentando num mundo hostil, em que cada uma tem de encontrar um modo de sobreviver e evitar a loucura. A diversidade social da linguagem bakhtiniana se vai afunilando, à medida que os dramas crescem e a divergência de tonalidades se dilui num plano muito bem armado pela autora real que tem em suas mãos um material denso para armar as ciladas que constituem o ponto forte do romance.

No momento, Iris já completou oitenta e dois anos e se vê às voltas com a pobreza, porque se separou de Richard e com um corpo decrépito que não atende mais aos seus comandos. Além disso, tem uma filha rebelde que chafurda nas margens da sociedade e uma neta que não pode manter junto de si pelas interferências danosas de Winifred. Se o corpo não é confiável, seu discurso igualmente não o é. Mas isto só saberemos no final. Iris, na verdade, está desfiando uma longa reflexão sobre a vida em que muitas ações são reprováveis só que, num primeiro plano, tudo é imputado a Laura. A fama desta, com a publicação de O assassino cego provoca uma sombra sobre Iris que se atormenta com a desenvoltura e certa ingenuidade da irmã, e toda esta tapeçaria com tantos fios entrecruzados é só mais uma armadilha em que nós, leitores, caímos porque não dispomos dos dados jogados por Iris.

O amor tem uma carga erótica explícita, com encontros de uma narradora com aquele anarquista em hotéis de baixa extração, em quartos infectos, locais estes em que o jovem atraente e libidinoso e viril se esconde das perseguições a que está sujeito. Nestes encontros, ele, com a mulher, traça uma história rocambolesca, um verdadeiro folhetim, ambientada no planeta Zincron, onde se fazem sacrifícios de donzelas virgens e onde aparece, enfim, aquele que será o assassino cego, que terá um papel redentor e mistificador diante das potências em luta. Este folhetim dantesco dentro do romance representa mais uma vez uma das linguagens do plurilinguismo que são pontos de vista específicos sobre o mundo, sendo formas de interpretação verbal deste mesmo mundo, logo, ideológicas.

Para Bakhtin, a língua não apenas comunica. Quando falamos ou escrevemos, falamos de um determinado mirante sobre o mundo, avaliamos este mundo, logo, demonstramos nossa visão e nossos valores axiológicos, em decorrência do que, todo uso de linguagem é ideológico. O romance é um gênero literário ideológico por excelência, porque ele representa o caos linguístico de nossa sociedade e em cada uma dessas emanações há uma tintura de valor. Ninguém usa a língua neutramente, muito menos um romancista que tem ao seu dispor toda a paleta da vida social e, escolhendo este ou aquele ângulo, estará afirmando ou negando verdades prontas que serão postas sob sua lente para ser criticadas ou não.

E Margaret Atwood é muito sensível a esta questão. Mergulha fundo na psicologia de cada personagem e em suas falas objetais refuta a estilística tradicional que, nas palavras de Bakhtin, via a obra literária como um todo, fechado e autônomo, cujos elementos compunham um sistema encerrado em si mesmo que não pressupunha nada fora de si, nem sequer outras enunciações. Para o pensador russo, a visada tradicional sobre o romance o considerava incapaz de se encontrar em interação dialógica com outras línguas, tarefa que nossa autora se propõe a fazer e o faz até as últimas consequências. Porque Atwood, atenta a esta problemática, elabora em seu romance uma colcha de retalhos de vozes díspares. Desde Richard, com seu pedantismo de empresário com falsa moral, passando pela cozinheira que cuida das meninas depois da morte da mãe delas e sempre tem um dito providencial para cada ocasião que se apresenta, indo até as raias da loucura de Laura que é trancafiada num clínica por manejos interesseiros de Richard que a obriga abortar um filho seu, atingindo o discurso plácido de Iris, por meio do qual ela se apresenta como uma mulher de classe, o que está longe de ser – esta pletora de vozes referve no plano do romance, tornando-o, pelos menos na aparência, multilingue, em que choques e divagações, assertivas e negações digladiam-se constantemente, criando a superfície áspera, cheia de reentrâncias e saliências que é a textura primeira de O assassino cego.

Bakhtin ainda nos traz à lembrança que a orientação dialógica do discurso para os discursos de outrem criou novas e substanciais possibilidades literárias para o discurso, deu-lhe uma peculiar artisticidade em prosa que encontra sua expressão mais completa e profunda no romance. Por esta razão, Margaret Atwood é uma autora de alto coturno, de mão cheia. Ela se recusa a um enredo meramente monológico (num primeiro plano) em que, baseada numa suposta realidade, apenas nos conta uma história. Ela ergue a trama que, num corte longitudinal, nos mostra as várias camadas de vozes de que é constituída, abrindo os condutos do seu romance para a babel social, sugando dali as tonalidades mais diferenciadas, por nos atrair para as ciladas em que a univocidade impera com toda a força e rigor, acentuando a orientação dialógica que é própria de todo discurso, mas apagando a polifonia aparente em nome do monologismo de Iris que impera na narrativa e a formata do princípio ao fim, até enxergarmos, atônitos, que tudo o que foi contato passou pelo seu crivo, pelo seu filtro e em nenhum momento tivemos a voz direta dos outros personagens. Lançando mão da memória, que modela o mundo segundo os interesses de quem a usa, Iris congelou todo um mundo que se submete a seus princípios, às suas frustrações, aos requintes de manipulação em que foi “treinada” por Winifred. Na verdade, o discurso de Iris não se encontrou com o discurso de outrem. Manteve-se num trilho subjetivo e particular em que a arte de trair e disfarçar e trapacear é a tônica predominante de sua perfídia.

Assim, a literatura é o texto que imprime uma intenção (objetal) que estratifica a linguagem semântica e expressivamente. A escritora em pauta é astuciosa nesta amostragem, em que Iris reputa tudo a Laura, Winifred e Richard, quando, no frigir dos ovos, ela é o centro das questões que grassam pelo romance, roubando-lhe o ar substancioso, e tornando-o claustrofóbico como uma obra de Dostoiévski.

Da perda da filha à perda da neta, Iris, a narradora, se envolveu em todos os atos, sem parcimônia, trazendo para si a tragédia da solidão e de estar abandonada. Neste ponto crucial, funciona a ironia de Margaret Atwood, cuja prosa sofisticada nos permite entrar num mundo de detalhes sórdidos e também poéticos por meio de surpreendentes metáforas que rasgam um discurso monolítico, tornando-o anuançado e dando ao texto uma tessitura até branda, diante dos dramas narrados.

A autora tem um poder de observação impressionante e nada escapa ao seu olhar. Minuciosa ao montar um cenário, também o é no enquadramento psicológico de cada personagem, nos dando deles um quadro vivo, de gente palpitante e não apenas figuras aprisionadas pelas páginas. Ao “fotografar” seu mundo, a escritora torna-se até excêntrica pela natureza das imagens e analogias que cria, num excruciante painel daqueles tempos em que uma foto, por exemplo, de um piquenique num parque, em que aparece Laura e o moço que a encanta, mais Iris, sendo que Laura estende a mão para cobrir-se, será uma peça-chave da trama e antecipa muito do que será narrado, como se aquela foto fosse um marco de um destino irrefreável que envolverá as duas irmãs com o mesmo homem. Atwood maneja personagens soturnos de modo vibrante, pulsantes em suas vidas que têm algo de tragédia grega e, o conjunto final de tudo isto são discursos e vozes em entrechoques que formulam o veio principal do romance de onde emana seu encanto e o poder de atração que exerce sobre o leitor que, como numa boa leitura, não fica passivo diante do livro, mas é conclamado a juntar as meadas para ir fabricando o que sugere a autora, numa interação viva e frustrada, porque o ponto final cabe a Iris.

Ainda recorrendo a Bakhtin, a palavra da língua é uma palavra semi-alheia. Ela só se torna “própria” quando o falante a povoa com sua intenção, com seu acento, quando a domina por meio do discurso com sua orientação semântica e expressiva. Este povoamento, no romance em tela, se dá em duas mãos. Temos a autora real se apropriando da língua e nela imprimindo suas intenções reais e temos Iris, se adonando de todas as palavras alheias para circunscrevê-las em seu redil e assim ludibriar o leitor com uma cilada atrás da outra, o que garante a alta voltagem literária de O assassino cego.

Margaret Atwood é canadense e tem uma vasta obra. Inclusive, recentemente, um livro seu de poesia foi vertido para o português por Adriana Lisboa, A porta, que teve ótima recepção da crítica brasileira. Com este O assassino cego, ela conquistou o Book Prize. Vivendo em Toronto, tem os olhos acesos para o mundo e volta e meia nos presenteia com obras-primas como o romance que abordamos e que não pode ser deixado de lado por quem se interessa pela real literatura digna deste nome.

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EU TE DAREI O CÉU

Neste livro de Ivana Arruda Leite, publicado pela Editora 34, com apenas 116 páginas, temos uma novela rasa, pedestre, sem qualquer tratamento significativo com a linguagem que possibilite ver o escrito pelo binóculo da literatura. Ivana Arruda cede ingenuamente ao “real”, sem discuti-lo, sem perceber que entre ele e a escrita há a mediação da linguagem e nesta está todo o jogo, todo o manuseio que pode tornar um texto literário segundo os critérios que temos hoje. Não havendo este jogo, a autora cai num realismo bocó que tem vergastado a literatura brasileira atual, com raras exceções.

Com o subtítulo “e outras promessas dos anos 60”, a história está centrada na adolescente Titila e seu ritual de passagem. Assim, a noveleta perpassa as décadas de 60 a 70, enunciando seus fatos marcantes de maneira superficial, sem que estes fatos sejam acompanhados de reflexão. Titila é uma garota alienada e o grande acontecimento de sua vida é a paixão por Roberto Carlos, até que, como adulta e repórter, é encarregada de fotografar o tal “rei”.

Cada parte ou capítulo tem como epígrafe um trecho de reportagem jornalística, em geral da Folha de S. Paulo. Isto parece indicar que a autora realmente renunciou à criação, à ficção e se põe a enumerar de maneira enfadonha e em ordem cronológica o que foi marcante naqueles anos.

Inexiste recriação do mundo abordado, inexiste um pensamento mais profundo acerca do que é narrado, inexiste a poesia necessária a um texto que se pretende literário.

Ao leitor é dado o árido papel de uma pesquisa de época: recobrar ou saber o que dava manchete naqueles tempos. A autora parece dominada por uma preguiça mental estonteante, como se estivesse subjugada pelos elementos que juntou dos jornais, recusando-se a pensar sobre eles e tirar dali um substrato original que oferecesse ao leitor uma lente para reconsiderar os tempos dos Beatles e da Jovem Guarda.

Na página final, ficamos com a impressão de ter lido um documento, uma certa reportagem sobre aquele mundo tão rico, rarefeito nas mãos de Ivana Arruda. E tudo isto passa muito longe do que consideramos literatura, ainda que na ficha catalográfica a editora tenha inscrito a palavra FICÇÃO.

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UM ROMANCE MEDONHO

QUEM INVENTOU PICASSO

Francesc Petit

Arx – 207 p.

Se um dia você cruzar com este livro, não se deixe levar pelo título chamativo e que desperta curiosidade, nem pela capa num belo padrão de design gráfico.

O romance é simplesmente medonho. Seu autor, Francesc Petit, é um dos proprietários da DPZ Propaganda. Ele pode entender muito bem de sua área de atuação, mas de literatura, perdão, de escrever, não tem a mínima ideia. Espero que ele não seja redador em sua agência.

Sob o pretexto de recuperar o modernismo catalão e sua importância para a história das artes, um grupo resolve mergulhar fundo na cultura daquela região que, todos sabemos, é bastante rica. Até aí, tudo bem. O problema está no modo como o autor engendra sua trama ou como tenta levar para frente algo que nem ele sabe o que quer.

Criando personagens inverossímeis, incongruentes, sem substrato, sem vida própria, ele cai num texto polentoso, repleto de contradições e escorregadelas quanto à linguagem padrão e, buscando o exotismo, põe seus personagens a comer e beber como animais insaciáveis. A partir daí, são páginas e páginas de descrição de pratos típicos, detalhamento minucioso de receitas que, além do enfado, causam um nojo arraigado no mais fundo de nós, por pensarmos em que medida  alguém, sem a mínima noção do que faz, se propõe a criar esta macarronada indigesta de um palavreado sem fim que só causa engulho no pobre coitado que tem o azar de abrir a primeira página deste livreco.

É tudo tão ruim neste universo (?) criado por Francesc Petit que fico sem ter o que escrever aqui. Minha perplexidade me domina, me tolhe e sou tão atropelado por esta empulhação que só me cabe dizer: não percam tempo com isto que é a pior droga já publicada neste país.

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TODOS OS HOMENS SÃO MENTIROSOS

Um romance de trucagens. Trucagens bem feitas a montar um mosaico em que sempre faltará um peça, o que chama pela inteligência do leitor, que precisa ser arguto para ir atrás do que não está dito.

Com uma dicção semelhante à de Vila-Matas e Roberto Bolaño, extraindo deste os personagens intelectuais em eterno desterro, Alberto Manguel escreve um romance refinado, inteligente, lançando sondas sobre o período em que a América Latina vivia sob as famigeradas ditaduras militares.

No primeiro capítulo, temos um narrador também chamado Alberto Manguel que conversa com um jornalista francês, Terradillos. Este pretende produzir um livro sobre o escritor argentino Alejando Bevilacqua. Ocorre que Manguel não se sente o mais competente para dar tais informações e se nega a falar a respeito do tema. Mesmo assim, vai falando e seu discurso constitui um pouco da história de Bevilacqua, não propriamente um escritor, uma vez que ele criava enredos para fotonovelas.

Por meio desta conversa recalcitrante que não quer dizer o que diz, mas acaba afirmando algo, o leitor começa a montar um espectro menos nebuloso sobre o escritor não-escritor.

À medida que solta o verbo, o narrador Manguel faz uma série de considerações sobre literatura, sobre o contraste entre ele e Bevilacqua, sobre a vida e as atribulações deste. Sabemos que ele teve problemas com a ditadura argentina, sendo preso e dividindo a cela com Chancho, peça-chave para o desenvolvimento da narrativa.

Ele exila-se em Madri, onde se envolve com uma organização que dá apoio aos fugitivos e, ao mesmo tempo, promove encontro entre escritores e artistas expatriados para que possam discutir suas obras e ter um contato mais humano, no deserto que sempre é um exílio.

Bevilacqua acaba publicando um livro que é considerado obra-prima, mas na noite do lançamento acaba fugindo desesperado da livraria, suicidando-se pouco depois, ao se jogar da sacada do apartamento de Manguel.

O segundo capítulo é narrado por Andrea, a cabeça daquela organização e que teve um relacionamento íntimo com Bevilacqua. Ela também está a conversar com Terradillos e procura desqualificar a fala de Manguel. Por meio do que diz, ficamos sabendo de mais detalhes do livro de Bevilacqua: por mais que este se negasse a escrever, Andrea, um dia mexendo nos guardados dele, encontrou um manuscrito não assinado, de mais de trezentas páginas, Elogio de la mentira, leu, não duvidou nem um segundo de que era um obra de alto nível. Entrou em contato com um editor amigo e o livro é publicado.

O terceiro capítulo traz a voz de Chancho, companheiro de cela de Bevilacqua e o que ele revela desmonta tudo o que se pensava a respeito daquele escritor. Deixo ao leitor o trabalho delicioso de saber que revelações são estas, porque não quero me antecipar, diluindo as surpreendentes novidades.

No quarto capítulo, alguém que passara meio despercebido, assume a cena: Gorostiza, um jornalista com quem Bevilacqua morou em seus primeiros tempos de Madri. Desfiando um outro enredo, Gorostiza revela-se na realidade quem é: trabalhou para a ditadura militar, indicava à polícia secreta quem eram os intelectuais que resistiam ao sistema. Por este viés, a morte de Bevilacqua ganha um outro contorno e dá muito o que pensar ao leitor.

Por fim, o último capítulo, por conta de Terradillos que desiste de escrever sobre o autor que tinha em mente, visto como “amante, herói, amigo, vítima, traidor, autor apócrifo, suicida acidental.” São muitos fatores reunidos num só homem, numa só personalidade. Grandes enigmas ficam no ar e cabe ao leitor montar as peças do quebra-cabeças.

Um bom romance. Com certa trilha policialesca, mas centrado mesmo no jogo parecer/ser e na consideração da literatura como uma arte que permite alinhavar os fins mais contraditórios, envolvendo escritores reais e de peso, até puras mistificações. Livro denso, para leitores iniciados, dado a rede de referências em sua trama. E traduzido com a competência de sempre por Josely Vianna Baptista.

Manguel é autor de obras de referência imprescindíveis para quem se preocupa com literatura, arte, leitura: Uma história da leitura, Lendo imagens, A biblioteca à noite, Os livros e os dias, No bosque do espelho, A cidade das palavras e outros, todos de leitura agradável e fruitiva, pelo esmero com que o autor trata seus temas e pensa de um modo a abrir horizontes para todos nós. Seus livros, no Brasil, são publicados pela Companhia das Letras.

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FUJA DESTE LIVRO

ANIMA

John Darnton

Editora Planeta  –  437 p.

Se você estiver procurando uma obra literária séria, digna deste rótulo, que tenha consistência e acrescente alguma coisa em sua visão de mundo e em seu modo de pensar, fuja de Anima. É um romance apenas de mero entretenimento, dos que se lê à beira da piscina, na praia, num fim de semana sem nada melhor para fazer e nada mais. É um simples amontoado de páginas com uma história um tanto quanto absurda, mais ainda inverossímil, beirando a um misticismo tosco e besta, que faz pouco caso da inteligência de um leitor mais exigente.

O entrecho está centrado em Tyler, um garoto de treze anos que, num passeio, resolve subir certa montanha. Na parte superior dela, há alpinistas. Lá de cima cai um utensílio que é usado em escaladas e que se enterra no cérebro do menino que perde totalmente a consciência.

Entram em cena dois neurocirurgiões, Saramaggio, que é especialista em cérebro e resolve aproveitar o caso de Tyler para pôr em prática algumas pesquisas até então só realizadas com animais: transplantar células-tronco em Tyler, visando à sua recuperação. E Cleaver, que tem uma teoria: a mente é diferente do cérebro e pode ser separada deste. Por meio de tramoias e jogos sujos, este fulano sequestra o corpo de Tyler e, com uma parafernália tecnológica e da informática, pretende comprovar suas hipóteses, fazendo a mente do garoto viajar pelo ciberespaço.

Claro que Tyler tem um pai amoroso que entra em conflito com tudo que lhe é apresentado e, aos poucos, vai percebendo que há algo de estranho com seu filho. Auxiliado  por Kate, uma neurocirurgiã, da equipe de Saramaggio e que discorda de seus métodos, os fatos se vão esclarecendo, até descobrirem o paradeiro do menino. Scott, o pai, resolve entrar na máquina e fazer uma viagem “sideral”, porque vinha recebendo, pelo computador, mensagens do filho a comprovar que ele estava vivo, mas em outra dimensão. Tais viagens se desenvolvem em túneis de luz, explosões estelares, uma cornucópia de corpos celestes e espaços de alvura etc., etc., num déjà vu insuportável pelo que tem de lugar comum e estereótipos quando se trata deste tipo de tema: sair da dimensão real e humana, vivida por todos nós a cada dia e “entrar” em outra dimensão, digamos, espiritual, aqui com o auxílio das ciências mais avançadas de que dispomos hoje em dia..

O romance tem todos os ingredientes e arapucas de um best-seller, em especial, cortar a narrativa em momentos de ápice, para injetar adrenalina no leitor, usando a tensão como meio de prendê-lo à leitura.

E e só. Jamais se relê um livro desses. Não há nada nele para mudar o percurso mental do leitor. Aliás, a editora Planeta tem decepcionado muito. No que é possível acompanhar, quase tudo que publica não tem substância, são meros produtos da indústria cultural. Excetuando a série “Planeta Literário”, em que podemos encontrar obras-primas, o restante é livro digestivo, de leitura não compromissada com coisa alguma.

Neste livro, especialmente, o que se nota é o açodamento do autor em querer aproveitar a ciência e a tecnologia que nos causam espanto a cada dia com seu avanço, fazer um pirão disto com certa dose de “espiritualidade” ou superstições e criar um romance de ocasião que, para os incautos, parece um livro atual, dialogando com tudo o que vem acontecendo no mundo material das pesquisas em torno do cérebro e na já platitude da informática. É tudo um engodo. Nada se firma de pé ou suporta uma análise mais acurada de um leitor com estrada, de um leitor bem informado, de um leitor que procura a leitura não só como mero entretenimento, mas como meio de avançar em seus planos vivenciais.

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DOIS RIOS

Dois rios, romance de Tatiana Salem Levy tem, numa primeira vista, duas vertentes: Joana e Antônio. Ambos são irmãos e moram em Copacabana. As férias de verão eram passadas em Dois Rios, na casa dos avós paternos, onde viviam uma infância paradisíaca, em contato com o mar e com a natureza.

As duas vertentes se subdividem em dois pequenos riachos: o passado e o presente de cada um dos narradores.

Joana vive com a mãe e esta convivência é um verdadeiro pesadelo. A mãe sofre de transtorno obsessivo compulsivo: lava as mãos continuadamente até sangrar. Precisa colocar os pratos e os talheres na mesa numa posição milimetricamente disposta. Abre e fecha a porta dezenas de vezes seguidas. Calcula a distância dos porta-retratos, entre outras manias que a submetem a uma vida ao rés do chão. E resiste ao tratamento porque não se acha doente. Joana vive um cotidiano sombrio, esmagada pela falta de perspectiva. Como o pai morreu e o irmão se mandou pelo mundo como fotógrafo, ela sobrevive acusando o irmão pela “fuga” e pela covardia de deixá-la só com a mãe.

Além desses elementos, paira sobre a narrativa a sombra de uma culpa. Como o pai morreu quando os dois irmãos estavam no início da adolescência, Joana sente-se culpada pela morte do pai, culpa esta acentuada pelas atitudes do irmão. Este peso tem suas raízes num pequeno fato de ordem sexual que envolveu os dois, numa noite de verão, quando fugiram da casa dos avós e foram “contar estrelas” e tomar banho de mar. Como Joana e Antônio eram muitos íntimos, do tipo que não se desgrudam nunca, esta intimidade descambou por iniciativa de Antônio. Então a equação montada é a seguinte: enquanto eles desfrutavam da felicidades, dos prazeres inclusive físicos, o pai morria.

O fardo que Joana carrega é um plus a mais no drama de sua cabeça, também um tanto doentia porque, quando tivermos a versão de Antônio, compreenderemos que não há motivos para tanto.

Joana, apegada ao passado, alimentando uma fúria indigesta contra o irmão, se vê presa numa vida pedestre, sem grandes lances que lhe tragam alguma substância existencial de maior fôlego. Frequentadora da praia de Copacabana, ali, entre tantos corpos semi-nus, ela acaba conhecendo uma francesa: Marie-Ange. A primeira frase do romance já se refere a ela e a coloca no pedestal como a salvadora da moça triste.

Marie-Ange é da Córsega, vindo de uma pequena ilha, onde também teve uma infância rude em contato com o mar e ajudando o pai nas pescarias de barco. Veio para o Brasil por um acaso, mero “lance do destino”. Quando estava no aeroporto, recebeu uma ligação da mãe comunicando que a avó estava passando mal, tendo piorado seu quadro de saúde. Entre voltar para casa e seguir viagem para o Brasil, ela opta pela segunda alternativa.

Joana, ao conhecer Marie-Ange, vê nela a luz no fim do túnel não só porque teve o seu cotidiano transformado, mas porque apaixona-se por ela e é correspondida. Da janela do seu quarto, ela vê o apartamento do hotel em frente, onde a francesa se hospeda e se comunicam por sinais.

Certa feita, a protagonista convida Marie para ir conhecer Dois Rios e assim ela, Joana, reencontra o passado. O lugar está em plena decadência pelo abandono, e o casarão dos avós vive seus últimos dias, uma vez que está quase em ruínas. Marie vê no lugar certa semelhança com seu povoado e faz um convite para Joana conhecê-lo.

Esta se sente impedida de empreender a viagem por causa do estado da mãe. Se partir, Aparecida ficará sozinha e, nesta situação, como se virará com suas obsessões?

Porém, num rompante causado pela ânsia de liberdade, decide acompanhar a namorada ao seu país natal. Chegando à ilha de Nonza, vê as casas feitas de pedras, conhece o lugarejo com apenas 51 habitantes. A mãe de Marie-Ange está ocupada com a mazelas de sua própria mãe. O pai, Vincent, continua pescando com seu barco. Marie resolve retomar o que fazia no passado e, levantando-se toda madrugada, acompanha o pai em seu trabalho.

Assim, as duas vivem seu idílio por uns tempos, até que um dia Marie some junto com o barco do pai. Muito ligada a ela, Joana acredita na sua volta e no dito: histórias importantes não terminam no meio, vão até o fim. De qualquer forma, ao passado, ao Rio, ela não voltará mais, porque experimentou o doce gosto de ser livre e dona do próprio nariz.

A esta altura do romance, surge a segunda versão: Antônio. Para surpresa do leitor, o que Antônio contará de certa forma espelha o que conhecemos do mundo de Joana, com uma variação fundamental: Marie-Ange, no aeroporto, decidiu não ir ao Brasil, mas voltar para o vilarejo, onde a avó agoniza. No metrô, Antônio a conhece e se apaixona por ela. Então resolve segui-la até Nonza para realizar sua vivência amorosa.

Aqui o romance perde fôlego. Torna-se repetitivo, alongado ao extremo e contraditório com a personalidade do novo narrador: se Antônio era um bicho livre, que não criava raízes em nenhum lugar, como, de repente, resolve parar na pequena e claustrofóbica vila? Vivendo uma rotina sem nenhuma cor novidadeira? Sim, porque Marie-Ange também desaparece e o rapaz resolve esperá-la. Ele passa os dias sem ter o que fazer, na expectativa da volta do mulher, e tem o pressentimento que todos sabem a verdade a respeito de sua namorada, menos ele. Ela voltará ou não?

Vincent resolve construir um novo barco e quando este fica pronto, retoma o exercício da pescaria. Só que, em lugar dos peixes de antes que alimentavam o povoado, agora ele retorna com peixes-voadores, que não são muito degustáveis. Antônio resolve fazer uma viagem com o pescador e vê o improvável: numa certa região do mar, o barco para e os peixes voam para dentro dele, até carregá-lo, um detalhe um tanto surrealista e inverossímel  nos quadrantes da economia do romance.

Enquanto isto, a rotina esmagadora continua. Até que o jovem rapaz resolve pressionar os pais de Marie sobre o destino que ela seguiu e fica sabendo que ela não voltará jamais. Antônio toma outra atitude não condizente com sua estrutura de personalidade: voltará ao Rio de Janeiro, cuidará da mãe, perdoará a irmã a quem considerava culpada pela morte do pai, tendo declarado isto várias vezes.

Põe em prática o plano e ao chegar à sua casa no Rio e tem a surpresa desestruturante de saber que Joana viajou. A mãe Aparecida não sabe para onde, nem quando voltará e diante da insistência do rapaz em conhecer a verdade, ela só balança a cabeça em negativa e some no corredor.

Em resumo ligeiro é disto que trata o livro Dois Rios. Não é um grande romance. Falta-lhe fôlego, mas o pecado maior está na ausência de uma invenção de linguagem apropriada ao que é narrado. Não se trata de defender o experimentalismo e, sim, uma linguagem de plasticidade própria que moldasse o enredo e os narradores, para fugir do registro meramente realista que é a tônica do romance brasileiro contemporâneo. Escrito como foi, o livro é apenas uma história mimética, transparente (sem ter nada para ser interpretado, porque tudo é dado para o leitor que não tem trabalho nenhum a não ser seguir página a página a história de Levy), num aspecto formal conformista ao que já está aí há gerações e sem novidade para encantar pelo toque original.

Sob este aspecto, Tatiana Salem Levy não apresenta nada de novo. Cai na vala comum dos romancistas tradicionais que têm uma fôrma para construir suas criações, sem avançar em termos literários. Bipartir a narrativa com dois focos diferentes, usando um mesmo fato detonador que pode dar vazão às duas vertentes citadas, não é um grande achado pois, quando o rapaz toma as rédeas do discurso é a partir de tudo o que já sabemos sobre a francesa e sua cidadezinha e este discurso não tem um dicção diferente daquela apresentada pela irmã. Página após página vem mais do mesmo. Inclusive temos a impressão de que a autora não tem o que fazer com sua “invenção” e fica rebobinando as páginas numa série de pequenos fatos consabidos, em especial sobre a relação de Antônio com Joana na infância e isto torna o livro aborrecido, porque não traz nada de novo à nossa consideração.

Em seu primeiro romance, A chave de casa, Salem Levy já se apresentava como uma escritora tradicional, na temática e na forma e não entendemos os prêmios recebidos e o entusiasmo da crítica com ela. É apenas mais uma autora fazendo o que todos fazem, sem uma luz própria, sem voz especial. Falta-lhe verve, falta-lhe substância, inclusive para criar discursos diferentes para os dois narradores, principalmente se levarmos em questão que um é mulher e outro é homem.

O pano de fundo é a ditadura militar, porque Dois Rios fica em Ilha Grande, onde funcionava um presídio que recebia prisioneiros políticos. Inclusive, Aparecida é filha de um policial. Mas o rendimento destas questões no romance é parco.

A inversão dos papéis: a irmã espera, enquanto o irmão corre o mundo; o irmão espera, enquanto a irmã resolve descolar-se em viagem é um mote interessante, mesmo assim não traz um lastro inovador para o livro.

Como a autora é jovem e está apenas no segundo romance, ela é mais um investimento, uma espera, do que uma escritora já consolidada. Fazemos votos de que ela encontre uma linguagem própria e se afaste deste realismo descontrolado e massacrante que vicia e acomoda a maioria de nossos escritores.

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Will & Will: um nome, um destino

Um livro extraordinário. Fabuloso. Sensacional. E todos os outros adjetivos de grandiloquência para rotular esta obra-prima de John Green e David Levithan. Há um adjetivo que detesto, porque, usando-o, dá a impressão que as coisas são feitas pelos deuses e não pelo suor e planejamento dos homens. É o comum genial. Mas este romance merece ser classificado assim: genial. Genialíssimo.

Há nele um sabor de vida, dificilmente encontrado na literatura. E por tratar de um tema espinhoso, os autores o fazem com a maior naturalidade, com toque espontâneo, livre e saudável.

Esta narrativa tem como ponto central a figura de Tiny. Ele é um adolescente homossexual. E suas características físicas não o ajudam. É tido como um gigante, gordíssimo, de mãos enormes, cara balofa e arredondada. Mesmo assim, Tiny se apaixona toda semana por um garoto diferente e já teve inúmeros namorados. Mas não pensem que ele é do tipo maricas, afeminado. Não, Tiny é forte, joga futebol, tem um faro artístico muito refinado e seu plano é montar um musical na escola, em que contaria sua vida, principalmente, contaria como saiu do armário. É um musical para combater a homofobia e se assumir diante da comunidade, para que todos saibam que ele não tem nenhum problema em ser quem é.

Tiny, tem como maior amigo outro adolescente: Will Grayson. Este é hétero e vive uma paixonite não assumida por Jane, colega de escola. Todos eles estudam no mesmo estabelecimento. Will tem como regra básica da vida ficar calado para não entrar em confusão, para não falar impropriedades e ter que sofrer as consequências disto. Como ele e Tiny são íntimos, este sabe dos sentimentos do amigo e faz de tudo para que ele se aproxime de Jane. Tyny, se é grandão, tem um coração nas mesmas proporções e detesta ver o amigo sofrendo por algo que seria superado facilmente: é só Will se aproximar de Jane e abrir o jogo. Contudo, Will reluta em fazer isto e passa o livro inteiro se martirizando, se culpando, até que encontra uma senda para chegar na menina.

Mas a graça do livro está em que existe um outro Will Grayson. Este mora em Chicago, enquanto os outros personagens são de Nova Iorque. Este Will é gay, depressivo, faz terapia com remédio para superar seus demônios, e tem uma autodestrutividade do tamanho de um bonde. Nada dá certo em sua vida. Lá pelas tantas, ele conhece Isaac pela internet e os dois começam a se conhecer e manter um relacionamento que mais e mais os aproxima, até chegar a um patamar de intimidade muito grande. Acontece que Will tem uma amiga, Mara, que está a fim dele, estuda com ele e desconfia de que ele é gay. Mara é aquele tipo de amiga dominadora, sempre pegando no pé do rapaz, cercando-o de todos os modos e maneiras, para ver se o conquista. Will não quer nada com ela. Lá no seu mundo interior ele sabe que está apaixonado por Isaac e não vê a hora de os dois se encontrarem. Até que este dia acontece. Um encontro em Nova Iorque.

Will está feliz, entusiasmado e se produz como nunca para ir ao encontro daquele que ele ama. Ao chegar no local combinado, ele estranha muito o local: é uma sex shop. Adentra a loja meio sinistra, dá uns volteios por lá para ver se encontra Isaac. O rapaz que atende na loja é outro tipo estranho, cheio de tatuagens e piercings. No interior do estabelecimento, há um outro rapaz. Will o encara, mas reconhece que não é Isaac. Este é loiríssimo e aquele guri ali não tem nenhum traço de loiro. Até que o atendente chama este rapazote pelo seu nome: Will Grayson. O Will gay pensa que está sendo chamado e se aproxima do balcão. Assim, os dois Will acabam se encontrando e se conhecendo.

O Will hétero está na loja para matar o tempo porque, devido à idade, não pôde entrar num show em que estão Tiny e Jane. Matando o tempo, ele compra uma revista pornô e quando entra em contato com o Will gay, está com a mesma na mão e não sabe muito bem o que fazer. A revista se chama  Mano a mano e ele alega que a comprou para estudar espanhol.

Enfim, os dois Will estão cara a cara e então começam a conversar. Will gay diz que está esperando um amigo e Will hétero conta sobre sua desventura: mandara falsificar sua identidade para entrar no show de rock, mas o falsificador se enganara na data de nascimento e, deste modo, ele, Will, não pudera entrar para assistir ao espetáculo.

Os dois se sentam no meio-fio e, conversa vem, conversa vai, Will gay abre o jogo sobre si mesmo e Will hétero acaba definindo sua situação nebulosa com a garota Jane. Os dois se entendem bem e estão vivendo uma situação muito parecida. Lá no horizonte, um amor que não se concretiza e as esperanças vão pelo ralo.

O tal show termina e aparecem Tiny e Jane. Will hétero apresenta o Will gay para os amigos e Tiny logo se interessa pela fofura do Will do seu time. Assim, todos os caminhos se cruzam. E já que Isaac não aparece, Will, apesar de sua timidez, fica com Tiny. Eles vão até um parque, onde se beijam. Will acha esquisito ficar com um grandalhão daqueles, porque quando o abraça tem a sensação de estar mergulhando em massa amorfa. Mesmo assim, aí começa um relacionamento. Começa na verdade um namoro.

Enquanto os dois se regalam o Will primeiro sai com Jane e mesmo com muita roupa devido ao frio, os dois se dão um bom malho e começam a se beijar. Parece que as barreiras se rompem. Só que nada é fácil, porque o garoto descobre que ela tem um namorado, um atleta de polo que é mais uma barreira entre  eles.

A noite se esvai e cada um pega seu rumo.

No dia seguinte, o Will gay começa a receber uma série de mensagens em seu celular de Tiny, uma a cada trinta segundos. E isto o entusiasma. Tem a sensação concreta de, pela primeira vez na vida, estar com alguém. E passam efetivamente a namorar. Tiny não cabe em si de contentamento, até que vai à casa de Will almoçar e conhecer a mãe deste. A mãe age com a maior naturalidade, sem nenhuma ponta de preconceito ou rejeição pelo filho homossexual e ganha de presente do grandalhão um jarra de vidro muito especial e refinada. Tudo está correndo bem, não é? Nada disto. Quando vão para o quarto de Will e começam os amassos, Will dá vazão à sua destrutividade patológica, diz uma série de inconveniências para o novel namorado e acaba estragando toda a relação que mal começara.

Lembram-se do musical que Tiny estava preparando para a escola? Pois é! No meio do caminho, ele resolve mudar a temática. Em lugar de centrar a peça em si, ele alarga o espectro da coisa e resolve falar sobre o AMOR, sem deixar de abordar suas experiências frustradas. Com a mudança, tudo fica de perna para o ar. Tiny não conta com bons atores e muito menos cantores, faz testes e testes, até que reúne um elenco razoável, ajudado por Will, o primeiro, e Jane.

Como o Will, o segundo, acaba descobrindo que Mara lhe fizera uma grande cachorrada (não posso falar disto aqui, senão talha o gosto do romance), rompe com ela. Assim, está sem amigo e sem companheiro. Ele tem um colega na escola, Gideon, que também é gay e com este ele consegue se abrir um pouco e este amigo lhe dá uns bons conselhos, porque é mais realista, mais pé no chão.

No dia da estreia do espetáculo de Tiny, Gideon convence Will de ir assisti-lo e então eles montam um esquema para que o gigante saiba da presença deles e nisto são ajudados por Will, o da Jane, estes já namorando. O musical obtém o maior sucesso e uma das grandezas do romance está aqui: quando o show atinge seu ápice, este é também o ápice do romance, que termina lá nas alturas.

Bem, dei umas pinceladas ligeiras sobre o enredo, só para vocês terem uma ideia da medula central da obra de Green e Levithan. O que importa mesmo é ressaltar a linguagem. Solta, livre, cheia de gírias, em especial com o uso típico que os adolescentes fazem de “tipo”, o que dá um sabor especial ao romance. Nas reviravoltas que o enredo tem, formando uma verdadeira tragicomédia, o humor não preconceituoso, dá o tom. É possível soltar gargalhadas com as amarrações que os autores fazem com as figuras destes adolescentes que trocam as mãos pelos pés.

Talvez o nervo central de Will & Will esteja em mostrar que encontrar enroscos, dificuldades, problemas na vida, independe da sexualidade. Seja hétero, seja gay, todo mundo aqui tem um carga de desavenças consigo mesmo e com o mundo e são desafiados o tempo todo para encontrar um ponto de equilíbrio.

O livro também funciona como um rito de passagem. E neste rito, tanto a descoberta do feminino por Will, tanto a descoberta do masculino pelo outro Will, se equivalem. Na verdade, há um espelhamento interessante entre os dois. E os autores, com mão leve, esperta, consciente, colocam as sexualidades no mesmo patamar e sem levantar bandeiras. Não há defesa de nenhuma forma de afetividade. Se há, é mostrar que tanto um Will como o outro, estão envolvidos na teia do amor, dos problemas que esta descoberta traz, das perplexidades assustadoras, das perguntas sem resposta que cada um, no seu modo de viver, precisa enfrentar no cotidiano, em que fantasmas e demônios e alegrias os envolvem por todos os lados.

Importante que Green e Levithan mostram a homossexualidade muito mais como uma forma de amor do que uma compulsão pelo sexo. Os personagens gays não são reduzidos à genitalidade, em nenhum momento têm um ato promíscuo. Para falar com sinceridade, o sexo nem aparece na superfície do que é narrado. E quanto ao sexo, Will, o hétero, tem uma tirada sensacional: “Quero dizer, meu Deus, quem se importa com a porra do sexo?! As pessoas agem como se essa fosse a coisa mais importante que os seres humanos fazem, mas vamos combinar. Como pode a porra de nossas vidas evoluídas girar em torno de algo que as lesmas podem fazer?” É assim que Will mostra sua convicção madura, seu discernimento, seu equilíbrio quanto a este tema obsedante e mostra um distanciamento crítico invejável, quebrando aquela história de que adolescente só pensa naquilo.

Assim, temos um livro magistral, que escolhe os ângulos mais inusitados e originais e engraçados para tratar de uma história de amor, ou de várias, sem cair em nenhum lugar comum. Tudo aqui rescende a novo, tudo aqui tem a frescura da primeira vez. Tudo aqui é muito equilibrado e os personagens interagem num mundo que é deles apesar das diferenças e por causa das diferenças.

Um livro estonteantemente belo, vigoroso, provocativo. E de profundo lastro que nos leva a refletir sobre as formas de afeto que a vida apresenta e como devemos estar despojados de qualquer atitude a priori se nos atrevemos a abordar o tema do sentimento de um ser pelo outro. Os personagens aqui não apresentam caráter exemplar. São garotos e garotas comuns, colegiais infernizados pela escola, e com poder criativo para suas vidas e para seus cotidianos. O musical escrito, dirigido e representado por Tiny mostra como a escola deve estar aberta às propostas dos alunos e como tem a aprender com eles. Pegando o tema específico tratado pelo nosso amável gigante, o amor gay, que escola no Brasil teria ousadia de se abrir para um espetáculo deste porte e com este objetivo? As escolas brasileiras são depósitos sombrios de crianças e adolescentes e ali são impingidos preconceitos de toda espécie para domesticá-los segundo os padrões burgueses e preparados para mão-de-obra do famigerado mercado. Ninguém, nestes antros, aprende a ser livre e muito menos criativo e muito menos capaz de se autodeterminar. A homossexualidade em nossas escolas ainda é vista como doença e qualquer comportamento que denote esta orientação logo é cerceado pela “psicóloga”, pela “coordenação” que se aprontam em CURAR o menino ou a menina, sendo os braços fascistas dos minúsculos felicianos da vida.

Will & Will  é um sopro de frescor e mostra como os Estados Unidos, apesar de todos os seus conservadorismos, está avançado em relação a nós neste aspecto. Porque este livro foi escrito para jovens. Aqui no Brasil, foi publicado pelo selo Galera, da Record, e parabenizo esta editora por colocar as garras de fora e apresentar ao público juvenil um calhamaço de 348 páginas, sem ilustrações, confiando certamente que há vida inteligente entre os nossos garotos, capazes que são de ler um livro destes, sem aquela mastigação prévia a que são submetidos pela literatura dirigida a eles.

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Golegolegolegolegah!

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GOLEGOLEGOLEGOLEGAH!

Marcio Renato dos Santos

Travessa dos Editores – 73 p.

No "Decálogo do perfeito contista", Horácio Quiroga determina no oitavo "mandamento" e no nono:
8. Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o final, sem atentar senão para o caminho que traçaste. Não te distrai vendo o que eles não podem ver ou o que não lhes importa. Não abusa do leitor. Um conto é uma novela depu- rada de excessos. Considera isto uma verdade absoluta, ainda que não o seja.
9. Não escreve sob o império da emoção. Deixa-a morrer, depois a revive. Se és capaz de revivê-la tal como a viveste, chegaste, na arte, à metade do caminho.
Pois é isto que Marcio Renato dos Santos faz em seu recente Golegolegolegolegah! Ele toma as rédeas dos personagens e leva-os firmemente até onde quer, com perfeito domínio da arte de criar alguém vivo e conduzi-lo com expertise, dando-lhe vida pulsante e convincente.
Ao mesmo tempo, o autor não se deixa levar pela emoção. Os contos são calculados para aquele efeito único que é o objetivo do conto, segundo Poe. Depurados pela lapidação verbal, as narrativas têm alta voltagem ao nos apresentar personagens praticamente reduzidos a zero. Estes personagens parecem cimentados numa condição imutável, para a qual não veem saída. É como se seu destino fora traçado por deuses desconhecidos que lhes teriam lançado a maldição: fiquem onde estão e não se atrevam a dar um passo à frente. Isolados, perdidos de si mesmos, enfrentam o inferno de uma solidão áspera em que tudo conspira contra eles. Felicidade? Não a atingem nem de longe. Desespero? São tão anu- lados por seu cotidiano sombrio e massacrante que sequer se dão ao luxo de arrancar os cabelos.
Protótipos de um mundo esvaziado de sentido, um mundo que não tem mais lugar para o humano, um mundo talhado na mornidão do não-sentido, eles chafurdam na vala comum dos escrotos que se perderam de si próprios e, principalmente, do outro. O outro pode, às vezes, ser um fantasma, mas não tem referencialidade substantiva para lhes dar o suporte de uma interação viva, complexa, na indefinição de toda convivência.
É claro que hoje em dia vivemos todos à merce e ao redor de nosso umbigo. Os personagens de Marcio Renato dos Santos levam isto ao extremo. Não saem de casa, não conhecem a cidade onde moram, muito menos as suas ruas, seus bares, seus restaurantes. E quando saem, não passam de autômatos numa prática existencial engessada num nada corrosivo que os leva sempre a becos sem saída.
Triviais e anônimos, desqualificados e de baixa extração (mesmo quando têm dinheiro, cuja origem é sempre indeterminada), eles levam uma vida ao rés do chão, porque lhes falta um projeto existencial, lhes sobra uma nulidade acachapante em que estão sozinhos perante o próprio ato de existir. Se se olham no espelho, não se reconhe- cem porque seus traços foram diluídos e devorados pela trivialidade de seu rastejamento na vala dos comuns mortais, em que tons de personalidade deixaram de existir.
Plenos das mazelas mais triviais, eles sequer têm um nome próprio, com exceção de Zé Ruela. Este, mais que nome, tem uma série de apelidos que o desqualificam e o jogam à margem de uma existência tranquila no bairro em que mora. Afi- nal, é o louquinho do lugar, mais soterrado que respirando o ar de todos.
Vamos dar uma olhada, ainda que rápida, em cada conto que compõe o livro:
"Golegolegolegolegah!" - um título que é uma longa onomatopeia para a rarefação do personagem-narrador. Este fulano abandonou sua cidade natal que era dominada por uma família de tiranos que controlava a todos. Mudou-se para Goi- ânia. Mas pode ser também Maringá, Florianópolis, Caxias do sul ou Campinas. Ele não vê diferença de um lugar para o outro. Enquanto narra, tem consciência da sua função e interrompe o ato de escrever várias vezes para cuidar de tri- vialidades, como beber um copo d´água. E não tem muita certeza do ponto em que deve terminar a narrativa. E o texto que ele escreve, o vem fazendo há anos: escreve, apaga, reescreve.
"Você tem à disposição todas as cores, mas pode escolher o azul." - um título lírico, afável para uma história em que o narrador-personagem não tem controle sobre nada. É um obsessivo: precisa passar por um mesmo ponto da cidade, sem definição geográfica. Até que certa vez o ônibus em que trafega tem uma pane e ele é obrigado a descer. Completamen- te desorientado, não sabe em que local está. Misturando fome e ansiedade, anda e desanda, sem saber onde ir. Até que reconhece uma rua e, a partir daí, vai em busca daquele ponto que automaticamente o chama: a passarela, a ruela, a viela, o canal, o posto que é seu trampolim para o azul. Você pode escolher o azul? Não, o azul é impingido como ú- nica condição possível, levando o leitor ao mesmo beco-sem-saída deste narrador que perdeu todas as cartas de seu jogo.
"Digital reverb delay" - um sujeito aparentemente normal. Mas não fala. Conformado. Passou sete anos numa prisão e não teve garras para se defender contra o que é acusado. Kafkiano, recebeu "dinheiros inesperados" e se instalou diante do mar. Todavia, tem saudades dos dias ruins. A garganta está inflamada por falta de uso. Grava suas falas para ouvi- las e refletir sobre "a sorte de não ter despencado no precipício." Ele não despencou no precipício? Claro que sim. A partir do momento que "perde" a linguagem, ele se desumaniza, não tem mais uma interação possível com seus semelhan- tes e esta anulação de sua humanidade - já que a linguagem faz o homem - é o voraz precipício de sua nulidade. Ele é aquele que tenta se erguer puxando os próprios cabelos ou tentando pular a própria sombra. E assim, está emparedado numa condição sem pontes para o outro e, autocentrado, macera-se na gravação do que diz, e sua reflexão é mais um ato de quem não é nem diante de si mesmo.
"Nevoeiro" - outro fulano que ganha um bom dinheiro, sem que isto seja condição de viver em plenitude. Costuma encon- trar amigos mortos há mais de vinte anos. E nunca tem certeza: é o amigo que revê ou é alguém parecido? A morte aqui tem sua presença marcante como um contraponto ao raso existir de alguém que só sobrevive num dia a dia repleto de na- das. O dinheiro virou mera moeda de troca que não disfarça seu processo de alienação em que está embutido. Sem um ob- jetivo para ser e fazer, o escamoso cotidiano o sufoca e lhe cria a ilusão de ver rostos conhecidos que podem não ser. Então o que de verdade acontece é que ele está no interior de um labirinto de espelhos a refletir suas imagens indefinidas, imagens de um homem que não tem rosto próprio e cai no auto-engano de pescar possíveis referências nesta ilusão de ver quem pensa que vê.
"Zé Ruela" - este é o louquinho das pernas fortes e dos braços finos. Costuma correr pela cidade e em lugar de isto ser algo positivo, é fator de desmerecimento diante da comunidade. Queria ter a profissão de mensageiro. O que con- segue é ser rotulado de Gasta Sola, Carpe o Pé, Serelepe, o Louquinho da Rua, o Sem pausa. Louco manso, segundo sua própria concepção, tentou trabalhar para distribuir panfletos de propaganda. Desanimado, jogou tudo no lixo e perdeu o emprego. Sua dúvida: até quando a cidade vai permiti-lo andar por aí? É o homo faber, molde do homo ludens que le- vou ao homo loquax desistindo de seus atributos, não desenvolvendo nenhum potencial, por isto não livre e um homem sem liberdade é o retrato de nossa sociedade em que nossos papéis são programados por ideologias dominantes que nos reservam pouco espaço de manobra na busca do ser.
"Cento e noventa" - roupas e sapatos importados. O personagem come em bons restaurantes. Porém, descobriu que o suces- so engorda. Morde-se porque um conhecido tem prestígio como músico e ele não compartilha da opinião dos que veem qualidade neste artista. Enfurece-se porque Fulano é tido como bom escritor e, ele, claro, não concorda com tal ró- tudo. Pensa em usar parte de seu dinheiro para demolir estes mitos. No fundo, um interesseiro cínico que enganou e conseguiu subir na vida. No seu nada, percebe "que talvez nenhuma palavra tenha importância como teve um dos primei- ros sons que emiti e ouvi:" golegolegolegolegah!
É preciso ressaltar o imenso salto de qualidade e maturação que o autor deu de seu primeiro livro Minda-au para este  Gole. Ganhou em técnica, em densidade, em substância. Ganhou na precisão concisa de histórias que deitam e rolam na   ironia. Ainda que as situações se passem sem um localização precisa e definida, não é fora de propósito localizar es- tas histórias em Curitiba, com seus provincianismos, suas panelinhas, sua autofagia melindrada diante de quem cons-   trói alguma coisa que o alça fora do comum.
Talvez, nos diversos contos, tenhamos sempre o mesmo personagem. O importante é que o autor o(s) pegou pelas mãos e    o(s) levou com firmeza até onde queria, como prega Quiroga. E nos retratos secos, não há emoção. Há a racionalidade   de quem escreve com equilíbrio, traçando um caminho de arquitetura textual muito bem pensado.
E não poderíamos deixar de dizer algumas palavras sobre o livro enquanto produto editorial. Uma edição surpreendente-  mente bela, dessas que fazem bem aos olhos e às mãos, rivalizando com as melhores editoras do país. Um projeto de de- signer  gráfico de primeira linha de Marciel Conrado, também responsável pelas sugestivas e intrigantes ilustrações.
É bom e salutar reconhecer (sem o provincianismo citado antes) que Curitiba não é mais só uma promessa, porque já tem  um lastro de produção invejável em todas as artes, em especial na literatura. É só dar uma espiada na publicação de   tantos jovens autores que apareceram nestes últimos anos.

 

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Poema do vaso

O momento era um vaso pálido perdido na janela. Talvez muitas coisa se relacionassem com ele: memórias de um cão, teia de olhos bassos, os dedos flexíveis em certa manhã de sol. O vaso estava ali e reunia as suas forças, e sua altivez de objeto perdido ou menosprezado não danificava a aura das coisas deixadas num canto. Se aproximássemos dele o ouvido, como o fazemos com uma concha, haveremos de encontrar encantos: vozes triturando a tarde, festas em noites perdidas nos calendários, o cetim quase doce da voz de uma criança resfriada. Como não é certa essa atitude – ouvir o vaso – ele permanece ali, um momento da casa, uma lembrança na janela de que algo merece ser cuidado. 

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