Marcelo Sandmann - Poeta

Lendo o livro A fio, de Marcello Sandmann - 7 Letras, 2014 - fui levado por ondas de agradáveis sensações, na certeza de estar diante de uma obra original que me confirma os trilhos de criatividade aguda deste poeta. O primeiro poema já diz a que veio o autor: síntese, ironia, brusquidão, linguagem seca. Não ao lirismo e uma voltagem imagética de algo que rompe o bom-mocismo que coroa boa parte da poesia que é feita Leia mais

POESIA RACIONAL

ESTÚDIO REALIDADE Rodrigo Garcia Lopes 7Letras      129 pgs. O início de Estúdio realidade é constituído por poemas enumerativo com pitadas surreais para mostrar a incomunicabilidade do mundo ou aquele fechamento que Bakhtin vê em todo poeta, quando este submete todas às vozes às suas necessidades enunciativas. Com um olhar para o cotidiano trivial como matéria de poesia, quando esta parece contaminada pelo tom  prosaico, Rodrigo Garcia Lopes tece uma poema cerebral, contido, sem nenhum derramamento por um lirismo Leia mais

A MAÇÃ ENVENENADA - Um romance-móblide

A MAÇÃ ENVENENADA MICHEL LAUB Companhia das Letras           199 pgs. Tensão do princípio ao fim. Porque há uma fatalidade retrospectiva pairando no ar. Desde as primeiras páginas sabemos que uma desgraça ronda o narrado e nossa atenção é atiçada na busca do que será este fato. O motor do romance gira em torno de um garoto de 18 anos. Morando em Porto Alegre, ele serve no CPOR e está dividido: faltar um final Leia mais

HEMINGWAY EM PARIS

HEMINGWAY E PARIS : um caso de amor Benjamim Santos                                                                                                 Gryphus                                   Leia mais

JEAN GENET POR EDMUND WHITE

GENET: uma biografia Edmundo White Record         782 p.   Edmund White tornou-se conhecido entre nós pelo menos por três grandes romances: Um jovem americano,  O quarto vazio  e O homem casado. Ele serve de modelo para aqueles que, no Brasil, fazem ou tentam fazer literatura gay, que pode ser gay, mas não é literatura. Não há, nesses livros brasileiros, prospecção nos conflitos dos personagens, não há trabalho burilado com a visão de mundo, não Leia mais

Fulgor noturno

No umbigo da noite

um telefonema me resgata

– mas é sempre mesma a vida

que não ata nem desata

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A destruição da ilha

       O navio ruma para certo canto da ilha. Dentro do navio, cavalos de fogo soltam relinchos que salpicam o mar com o mau gosto do surrealismo. Os traços que recamam as águas parecem feitos pela preguiça de quem não tem muita disciplina para a figuração fotográfica, ainda que não mimética. Ao ver os cavalos de fogo rumo ao ponto esconso da ilha, recorro a um blues. E de nada adianta. A música me diz com todas as letras pandas que música é musica e vida é vida. E esta vida é um festival de escombros, pedras rotas, praias desmaiadas antes da sombra. Busco em pinturas um tanto de fuga para o ardor que me queima. E o mesmo discurso se dá: lance-se das molduras, caia no chão, lamba-o, porque vida não se improvisa com pinceladas. É a vez de textos pairarem em minhas mãos, afinal, quero esquecer a destruição da ilha, rompida pelas patas incomensuráveis da animália que arrota brasa e torra os últimos gravetos que fiz questão de preservar para situação muito especial. E dos textos apenas escorres bílis. Como se gargalhassem num festim em sala de necrotério, põem os is sob os pingos que não dei, cutucam meus costados, empurram meu peito contra o calor da hora chã e sabem ecoar somente o que já domino: viver é uma estupidez de dados pendurados em relatórios que as telas consomem em sua bela geografia de designer, significante para as estrelas e ofuscante para quem acabou de perder o último centavo de sua propriedade. Não sei como refazer o desperdício de minha pele. Estou exausto diante da paisagem escancarada ao ritmo do que me persegue e me põe na ponta do arpão. Sem defesa. No defense. Nem conto com asas para largar o lodo ligando os dedos ao chão. O navio, enfim, arrombou o recanto doce, a quentura de maciez que em outra oportunidade me ofereceu a polpa do paraíso rasteiro que habitamos. O gosto na boca é de cinema velho. Nunca mais haverá o mesmo manjar, e o fogo crepita com a insolência de um transe. Como me assegurar um apoio? Como me apoiar em algo menos voante, se o bastão floresceu no inseto carnívoro que cobre meus olhos?

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Três poemas

1. Da chaga

Esta chaga luminosa feito clarabóia no mar, por ser luminosa é sombria e se perde nos meandros do arvoredo. Sutil e quase reta vem de origens ignoradas e habita a carne com a fé de um arpão.

O pensamento não pode inflar-se e acaba por deitar raízes na chaga que se nutre em cor e domicílio. A chaga respira com precisão e ao seu ritmo todo o corpo se amestra.

Não é um dado do momento, um pequeno acontecimento de contornos precisos para se saber como combatê-la.

Ela é difusa, escapa aos exames, rejeita os nomes e assim ganha mais ênfase para espraiar-se até o último limite do corpo.

2. Do vaso

O momento era um vaso pálido perdido na janela. Talvez muitas coisas se  relacionassem com ele: memórias de um cão, teia de olhos baços, os dedos flexíveis em certa manhã de sol.

O vaso estava ali e reunia suas forças, e sua altivez de objeto perdido ou menosprezado não danificava a aura das coisas deixadas num canto.

Se aproximássemos dele o ouvido, como o fazemos com uma concha, haveríamos de encontrar encantos: vozes triturando a tarde, festas em noites perdidas nos calendários, o cetim quase doce da voz de uma criança resfriada porque bebeu muito o luar.

Como não é certa esta atitude – ouvir o vaso – ele permanece ali, um momento da casa, uma lembrança na janela de que algo merece ser cuidado.

3. Do fim

Assim você desaparecerá e se suas gavetas estiverem cheias, isto não terá a mínima importância. Nada nelas funcionará como um anel de retenção.

Você acaba e suas coisas continuam, assim é que é, assim.

E o outono que estiver atravessando vidraças, espalhará seus brilhos amarelos com a mesma maciez que faz há séculos.

E os animais estarão em suas tocas, estressados da luta para escapar de outro que tentou devorá-los.

Assim, suas mãos, rígidas e frias, não levarão um dedo de prosa ou de calidez, e tudo quanto for humano aos poucos desaparece, até o seu silêncio, definitivamente, postar-se na entrada, proibindo o ingresso de quem chega encasacado, com o rosto em meio tom de inverno.

Assim, você desaparece e as nuvens vagam na imprecisão de seus contornos.

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Réquiem

Vera de Sá

Record      125 págs.

Enfim um romance brasileiro atual que merece estar na galeria daquilo que se pode chamar de boa literatura. A autora cria um universo estranho, disfuncional, numa correalidade que extrapola o vil realismo que assola nossa literatura contemporânea. Vera de Sá consegue com muito cuidado criar um universo de atmosfera sombria, com pitadas dantescas, em que o protagonista navega num lamaçal de contradições e indefinições, por meio de uma prosa esmerilhada, densa, de forte acentro prospectivo. Com isto, oferece-nos patamares inusitados, nos quais entramos sem nenhuma certeza de para onde estamos sendo guiados e onde  encontraremos uma localização no percurso ficcional. É difícil, inclusive, criar um perfil definido e iluminado de quem são de fato os personagens com os quais nos deparamos. No frigir dos ovos, é um romance exemplar para esta geração jornalisteira (salvo exceções) que se mete a escrever literatura, produzindo apenas obviedades, e sem conhecer como se monta um mundo ficcional digno deste nome.

Em Réquiem, temos um escritor obcecado por uma mulher já falecida. Só que esta morte não lhe causa a dor esperada e necessária para ele poder mergulhar na catarse. Os dados que permanecem nele desta mulher se vão esfumando, e ele se vê enrodilhado num labirinto de mortos. Labirinto que é a própria cidade em que ele busca evocações de Maria. Desorientado, com a mente em desordem e em turbilhão, ele não consegue nunca chegar a um porto seguro que lhe dê sustentação para escrever a obra planejada. Desagregado e despossuído de si mesmo, ele segue a lógica do impossível: recuperar um passado perdido nas brumas de uma lembrança que não se deixa apreender. Vera de Sá, com este romance de estreia, brilha como autora madura e dona de uma arte muito peculiar.

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Meu Michel

Amós Oz

Companhia das Letras       302 págs.

Outro grande momento da literatura. Romance de técnica narrativa tão bem trabalhada e desenvolvida do ponto de vista feminino que esquecemos que, no real, é um homem escrevendo.

A leveza do discurso, com suas repetições corroborativas, nos deixa à vontade para seguir adiante, como se houvesse um fluxo natural e não um texto construído com a racionalidade de carpintaria que o bom livro deve apresentar.

A incorporação da visão dos personagens no narrado, a primazia da criação do diálogo dão um toque irônico e de humor ao texto, porque não é preciso esperar um dizer e o outro fazer, este já fez, e a referência a isso, entremeada no leito do que se conta, modela toda uma fluência que desliza com suavidade.

O mergulho interior que o escritor faz em Hana durante sua gravidez, suas manhas, suas implicâncias, tristezas e insegurança revelam um pleno conhecimento daquilo que inapropriadamente se pode chamar de “condição feminina”.

Ao narrar um sonho de Hana, sem nenhum precedente que o indique e, de certa maneira, nenhum elemento a ele relacionado na sequência, faz com que este sonho seja apenas um entrecho a mais, estranho, porém dentro do ordenamento daquela realidade que vem sendo estruturada.

O autor não demonstra qualquer prurido em fazer enumerações, recurso que muitos abominam como empobrecedor de um escrito. Tais enumerações, ao contrário, dão uma tessitura mais poética e de densidade elétrica ao que nos é passado com maestria pelo autor.

É  impressionante a capacidade que tanto Hana como Michel demonstram de criar entraves no simples fluir de seu relacionamento, quando o cotidiano parece ir bem e uma palavra ou um gesto coloca tudo à beira de uma tempestade sem fundo.

Há momento em que o discurso de Hana “descarrilha” de forma completa e ela vai fundindo realidade, sonho, leituras, lembranças, impressões em sua imaginação febril e só aos poucos vamos tomando pé de seu desequilíbrio, sua histeria ou sua faceta esquisofrênica.

Sem mais nem menos, depois de agredir Michel,  humilhá-lo sem motivo, ela é levada por surtos de erotismo selvagem e exerce verdadeiros ataques ao marido, seja de madrugada na cama ou na praia, quando o machuca e rasga suas roupas, feito uma adolescente no frenesi de sua iniciação.

Outro traço quase incompreensível que registra a personalidade deste personagem é sua queda no consumismo desenfreado, quando ela e o marido haviam acertado planejar a vida financeira. Ela esquece tudo, vai para as lojas e numa manhã gasta em roupas todo o salário de um mês, isto quando não rouba dinheiro do marido.

Sua crueldade com Yoram, o adolescente poeta que com certeza vive alguma atração por ela, é outro quadro a revelar esta complexa personalidade a fugir de qualquer enquadramento. Hana o esmaga, coloca-o em situações constrangedoras e conflituosas, força-o a tomar atitudes e a fazer declarações para as quais ele não tem o mínimo preparo. Neste viés, Aziz e Halil, dois garotos árabes, bonitos e morenos, que foram seus vizinhos e amigos de infância, e brigavam por ela, tornam-se sua obsessão permanente, ela que é judia. O que dá um pigmento ainda mais contraditório nesta personalidade enfermiça. Em seus delírios, ela os vê como terroristas, como soldados de seu exército de princesa e termina o romance com eles “atacando” uma estação de águas.

Enfim, com este romance muito bem burilado, Oz nos dá um retrato irretocável de quanto é difícil acompanhar a mente de uma mulher em permanente estado de tensão. Tudo parece pronto a explodir e aprendemos que, no final, nenhum rótulo é capaz de apreender um caráter humano, ainda mais quando ele escapa do absurdo chamado “normalidade.”

Oz foi acusado pela direita de Israel de causar dor com seus textos. Neste romance pungente não abandona o lirismo e a dor é um um puxão no fio do pensamento: como nos entender nesta relação sempre em aberto e inconclusa com o outro?

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A coleção particular

Georges Perec

CosacNaify       82 págs.

Por ocasião do vigésimo quinto aniversário do reinado de Guilherme II, a comunidade alemã da Pensilvânia promove uma série de eventos, entre os quais, uma exposição de pintura. Nesta é mostrado o quado A coleção particular, que representa Hermann Raffke, grande colecionador, contemplando seu acervo. O quadro reproduz uma série de outros quados que são reproduzidos uma segunda e terceira vez etc. em mise en abîme, quadro pintado por Heinrich Kürz que a cada vez faz pequenas variações no que reproduz. A obra causa espanto do público que passa a contemplá-la com lupas, para averiguar os tipos de alterações. A obsessão é tanta que o museu restringe a visitação a 15 minutos. Não adianta. As filas são imensas, demoradas, até que um fanático, cansado de esperar, chega na tela e joga um vidro de nanquim sobre a mesma e a exposição é desfeita.

Tempos depois, Hermann morre e sua fortuna e acervo ficam a cargo dos filhos que resolvem leiloar os quadros. Alguns atingem cifras modestas, enquanto outros passam dos 100 mil dólares. Um professor de arte, Lester Nowak, havia escrito uma monografia sobre A coleção particular e o acervo de Raffke, autenticando-os. Depois do leilão, Humbert, um dos filhos, manda uma carta aos compradores das telas, afirmando que todas eram falsas.

Então ficamos sabendo que, numa das primeiras aquisições de Raffke, ele adquirira quadros falsos. Para se vingar, montou uma camarilha, junto com os filhos e autenticadores e o professor para darem legitimidade ao seu acervo. Inclusive A coleção particular  não passava de um trabalho de Humbert, em que ele se mostra um perfeito imitador.

A novela torna-se monótona pelo acúmulo de pastiches a imitar artigos de jornais, catálogos de pintura entre outros. Há um caráter de relatório: títulos de quadros, preços, detalhes sobre sua qualidade, histórico de quem possuiu os mesmos antes de Raffke. Só que tudo isto é, digamos, o caráter lúdico de Perec. Quando ele lança mão de comparações, dados sobre escolas de arte, ele está seguindo os passos de Borges, com suas bibliografias fantásticas. Noutras palavras, o autor está preparando uma armadilha para o leitor.

Na parte final, quando é comprovado que tudo não passou de um jogo de falsificação, a novela explode como um labirinto de espelhos esplêndido e borgiano e uma “pegadinha” que captou a ingenuidade do leitor. A narrativa se faz tão falsa quanto o tema por ela abordado. Somos apanhados no contrapé e nada resta se não dar um riso de mofa para esconder a perplexidade que toma conta do leitor ao saber que caiu num belo conto do vigário. Então tudo sobe de cotação e o quadro final diante de nós não tem preço.

Perec é expert em referências criadas por sua mente ou baseadas em fatos históricos. Trabalha com colagens, bricabraques literários que lembram muito de perto o que Borges fazia. Seus jogos linguísticos atingem virtuosismos e é um eximio jogador da e com a palavra, nublando as fronteiras entre o inventado e o real. Suas alusões, falsificações, como nesta novela, charadas, embricamentos de autores fazem a delícia de quem aprecia um texto enquanto texto, jogo de montagem. E pairando sobre tudo, o espírito sardônico do autor que não deixa de rir das encruzilhadas em que nos joga.

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O campeonato

Flávio Carneiro

Rocco, 382 págs.

Não tenho por hábito ler orelha de livro quando faço aquisições. Temo estragar a surpresa e quero ir com a cabeça virgem para a leitura. Às vezes a surpresa é desagradável, como no caso deste romance que é extremamente ruim.

Não passa de um bolsão de vazio em que nada se aproveita. Apresenta todos os clichês de uma novela policial, com a onipresente fala cafajeste do detetive. É um pastiche grosseiro dos livros do gênero americanos. Não vai além de uma sequência nauseante e previsível de tolices e grosserias. Até uma imitação canhestra de um livro canhestro como O código Da Vinci o autor tenta fazer. Pretendendo ser um escritor esperto, antenado, passeando por várias obras e autores policiais (americanos), o que ele consegue é um colcha de retalhos repulsiva, mal feita e rasteira do óbvio.

O mais irritante é a tentativa de procurar a criação de um personagem mulherengo, durão, sem qualquer fundo ético no sentido romanesco para tal feito. Por isto, não convence.

A pretensão de construir uma linguagem coloquial, solta, relaxada para o detetive André só alcança o nível do frívolo, inconsequente e grosseiro. Retalhado de filosofices de botequim, de ironia forçada, isto só torna o texto ainda mais repelente.

O discurso é machista: a mulher aparece sempre como objeto ao dispor do prazer de homem, nunca como uma personagem humanizada e com sentimentos próprios. Assim, o protagonista, suas falas, os cortes abruptos, as descrições telegráficas, as rápidas pinceladas sobre qualquer aspecto abordado são emulação barata de Rubem Fonseca. Mais um que tenta ser como este!!

André põe anúncio de detetive num jornal. Aparece Montenegro com o caso do desaparecimento do filho Pedro, de 15 anos e André se envolve com o caso que é a trama do “romance”. Nenhum outro cliente liga? É um furo de quem não sabe construir um enredo dentro do mundo da ficção e desconhece as implicações do escrever.

André, o canastrão, é imagem desgastada pelo que o cinema e as novelas detetivescas já apresentaram exaustivamente. Ao lado disto, há um total desrespeito aos homossexuais, vistos de forma estereotipada e preconceituosa, taxados com os piores adejetivos.

Total perda de tempo ler isto, quando há tanta maravilha de que desfrutar. Não gaste 39,00 com este lixo.

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A obra-prima ignorada

Balzac

Comunique     139 págs.

Poussin é um jovem pintor que deseja conhecer o mestre Porbus. Diante da casa deste, fica indeciso, intimidado de enfrentar a grandeza do outro. Sobe as escadas, mas não tem coragem de bater. Nisto, um velho chega, usa a aldrava e Porbus lhe abre a porta e julgando que o jovem é companheiro daquele, faz com que Poussin também entre.

O velho é outro pintor que começa a tecer críticas sobre um quadro de Poussin e a teorizar sobre arte. Na verdade, quem fala é Frenhofer, outro mestre da pintura, que faz referência a um quadro que está pintando: “Catherine Lescault”. Então os três decidem ir ao ateliê de Frenhofer. Chegando lá, Porbus quer ver o quadro que o colega está terminando. Este nega, alegando que está no trabalho há 10 anos, mas ainda não atingiu a perfeição pretendida e diz que nunca encontrou a mulher perfeita que lhe pudesse servir de modelo. Poussin e Porbus se despedem e vão embora.

Poussin, em sua pensão, encontra seu amor, Gillette, e lhe propõe que ela pouse para Frenhofer. Ela diz que se se mostrasse a outro, ele, Poussin, não a amaria mais e ela mesma se acharia indigna de seu amor. O jovem pintor insiste, alegando que sua futura glória depende disso. Então a moça aceita., mesmo sabendo que o amor entre eles chegará ao fim.

Três meses depois, Porbus vai visitar Frenhofer e o encontra decidido a viajar pelo mundo à procura de uma modelo que possa comparar com seu quadro. O velho mestre garante que ele não precisará fazer tal viagem: Poussin tem uma namorada/amante de beleza incomparável e se este consentir em “cedê-la”, o pintor terá que lhes mostrar o quadro até então não revelado.

Pouco depois, Poussin e Gillette chegam à casa de Frenhofer. Este se encanta com os atributos da jovem e concorda em compará-la com sua Catherine. Poussin e Porbus saem do ateliê e a moça se despe. Depois o pintor chama-os, afirmando que podem contemplar seu “Catherine Lescault”, porque nada há que possa rivalizar em beleza com ela. Quando revela-se o quadro, os dois ficam estupefatos: na tela só há camadas e mais camadas de tinta e apenas um fragmento de pé que se projeta para fora do caos de tinta. De repente, o garoto ouve o choro de sua namorada esquecida num canto. Torna-se de novo o homem apaixonado. Mas ela lhe diz que seria infame se ainda o amasse, porque o despreza. Frenhofer despede-se dos amigos.

No dia seguinte, preocupado, Porbus foi visitar o velho companheiro de arte e soube que ele havia morrido à noite, depois de queimar suas telas.

Por que resumo tão longo? Para mostrar que Balzac simplesmente escreveu uma obra-prima de ironia iconoclasta, em que antecipa o que será a arte moderna, em especial o abstracionismo, e revela como são incapazes de entender a nova linguagem um Porbus e um Poussin, mesmo sendo este um jovem. E este pretenso artista, perdendo Gillete, perde também sua obra-prima que é ignorada.

Todo o blablablá que cerca o mundo sobre o tal pós-modernismo, não vê como em Balzac já existe todo o conjunto de características que se veem nas obras atuais. Ele narra/descreve/reflete/teoriza/faz colagem ao mesmo tempo, realiza um palimpsesto sobre o que é a arte e tem um caráter de profecia sobre o que virá em termos de pintura. Ele está a frente de seu tempo e consegue erigir uma novela que concentra em si tudo o que os pretensos pós-modernos andam “criando”por aí. Obra indispensável. Aguça nosso espírito crítico e mostra como a contemporaneidade se esbalda em teorreias, esquecida do que a literatura já fez em sua caminhada pelos séculos.

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Todas as casas

Roberto Gomes

Criar, 158 págs.

O passado não é uma série factual a nos oferecer a “verdade”. É um mapa repleto de lacunas que são recriadas, ficcionlizadas, preenchidas segundo o olhar das experiências presentes. É muito mais uma projeção idealizada do que um contorno nítido e objetivo que podemos fotografar. Repleto de nuances, em suas frinchas o escritor mergulha na intenção de extrair dali o que pode ter sentido hoje. E este sentido ganha corpo à medida que o texto vai sendo construído como uma entidade ficcional na ótica de quem escreve.

É pelo menos isto que podemos depreender desta novela. Que começa com um “portal” de intensas pinceladas líricas, a nos dar a impressão de que entraremos num universo elaborado de um ponto de vista em terceira pessoa.

Mas, no desfile das casas começando seu desenrolar pelo tempo, há uma guinada: a primeira pessoa assume a cena e outra reviravolta nos espera: quando pensamos que seremos colocados diante de um bildungsroman (o que também não deixa de ser verdade), quem é o centro das atenções do narrador-autor é seu pai. Um pai mítico, ausente, de profissão errática, com muitas mulheres e famílias, motivo de escândalos e fuxicos entre os parentes, um pai que assim como aparece, desaparece, deixando algum dinheiro sobre a mesa da cozinha.

Este pai funciona como uma espécie de ponto de fuga, em relação ao qual o menino nutre sentimentos ambivalentes: ódio e admiração, vergonha e orgulho. Em plena decadência, quando o menino o encontra numa das ruas da pacata Blumenau dos anos 40/50, ele, o pai, porta uma bicicleta, depois de haver transitado pela cidade com o automável. A bicicleta é signo agônico: revela o beco sem saída em que mais e mais vai penetrando o pai, como aquele tipo de homem sem capacidade de regeneração, segundo o discurso moralista da família. Ao lado disso, o personagem menino vai acompanhando os esforços incansáveis da mãe para manter a casa de pé: trabalhando como costureira, ela se esfalfa para não deixar faltar o mínimo necessário. E na sua crueza de mulher abandonada, não esconde mais o desgosto pela vida – vive praguejando contra a carga demasiadamente pesada que precisa levar nas costas e contra a irresponsabilidade do marido, aquele tipo de homem que não resiste a um rabo de saia e vive preso ao encanto emanada das sirigaitas.

Roberto Gomes, como perfeito artesão do que nara, cria outra técnica que merece destaque: enquanto as casas são apresentadas em sequência cronológica – ele cria um fio condutor em que vai enumerando o arquipélago de casas para as quais a família mudava de tempos em tempos – as lembranças dessas casas são caóticas, emaranhadas, não lineares, comprovando a dificuldade de retirar do passado uma sequencial mais ou menos objetiva que nos dê um panorama geográfico da linha seguida em cada muda’nça. De uma casa ficaram os cheiros, de outra, uma foto vaga em que o narrador mal se reconhece, de outra ainda, uma janela onde esteve postado quando uma bala perdida quase ceifou sua vida, de outra, um cachorro, de outra, um canto que servia de encontros amorosos.

Neste mundo de vai e vem, há a presença de ares mitológicos centrada no rio Itajaí-açu. Só quem é catarinense e viveu no vale do Itajaí pode medir a força deste rio pelo que traz de encanto e tragédias: suas enchentes devastaram cidades, destruíram casas, mataram pessoas. Todavia, para as crianças, longe destes círculos dantescos, a enchente era festa: normalmente se ia para a casa de um parente, eram dias e dias sem aula, um grande feriado para dar asas à imaginação e às brincadeiras com primos e primas numa descontração que só mais tarde vamos avaliar com o verdadeiro peso. Mas criança não tem este tipo de percepção. A fúria do rio anunciava um tempo de quebra da rotina e era isso que importava. Marcando as estações diluvianas, pouco a pouco o rio vai delineando o amadurecimento do personagem, até ele adquirir um olhar mais concreto sobre os bastidores daquele espetáculo de águas turbulentas que traziam tantos e tantos desacertos.

Ao “organizar” suas lembranças, Roberto Gomes se utiliza de pinceladas rápidas, dinâmicas que, junto ao sabor poético, não deixam de lado o humor e a ironia, em especial quando caracteriza a fauna entre a qual vivia e seus traços peculiares. Também esta atento às transformações exigidas pela “modernidade urbana”que merecem dele cuteladas sardônicas para desvelar o quanto há de teatralização interesseira em tudo isso.

Cada casa descrita tem os seus mistérios, alegrias e misérias. E ele os perscruta em seus quartos, em suas camas, cobertores, nos retratos pintados a mão que deixam no ambiente das salas os olhares policialescos e severos de outras gerações, parentes que parecem mumificados, desintegrados da vida ou seres que viveram num outro planeta que não mais está ao nosso alcance. E no meio de redemoinhos, no meio da contradança das épocas transfigura-se o menino tímido, sempre perplexo diante do que presencia. Porta um livro debaixo do braço como amuleto a protegê-lo de tudo o que não entendia. Até chegar o instante de ir despejando nos cadernos, às escondidas, as ideias e poemas que pululavam em sua cabeça. Com eles, tenta preencher o vazio, dar resposta ao tumulto das perguntas. Ele só intuía o quanto viver é perigoso…

Quando o pai lhe confidencia a frustração de um grande amor gorado, o menino adentra a saga de compreender os outros, mas não tem como defender este pai contra as avalanches maledicentes que a própria família se encarregava de criar contra ele. O garoto vai mudando, o mundo se altera e o ajustamento entre ambos não se realiza. Pelo contrário, mais e mais ele vive o drama do descentramento, do marginalizado, experimentando em outro tom o que já era comum ao pai. Então, ler é um refúgio, a busca para o perfil fugidio que lhe escava pelos dedos. Ler é um modo de encontrar a viga central para o codidiano, a aposta no futuro. E quanto mais se enfronha com o mundo da imaginação, mais se afasta do imediato e corriqueiro, mais percebe que as quatro paredes da casa o oprimem e os valores que exalam dela (delas) não são os seus. Mudar de casa não altera nada. A casa é apenas um índice geográfico. O personagem em seu íntimo se opõe a tudo que é entronizado. Ou como afirma Bakhtin: “o herói (do romance biográfico) carece de um verdadeiro devir, de uma evolução” ou “o mundo reveste, no romance biográfico, um caráter particular. O contato e o vínculo do herói com o mundo não se organizam como um encontro casual, fortuito e inesperado (…). As personagens secundárias, o país, a cidade, as coisas ocupam um lugar funcional (…) e têm uma relação não menos funcional com a vida do protagonista.” Este é o drama de nosso personagem. Sufocado em tantas moradias, sufocado numa cidade provinciana, o futuro não lhe desponta. E quando lhe começam a fazer a clássica pergunta, o que ele será quando crescer, não faz a mínima ideia de que caminho tomará. Qualquer evolução parece estagnada. Tudo ao seu redor é meramente funcional e não se liga aos seus anseios mais íntimos. Se a infância fora dispersa por múltiplos lugares, ele chega a perguntar se foi uma sóinfância. E não sabe se achar entre tantos destroços, até em coisas corriqueiras: no meio de meninos de olhos azuis e cabelos loiros, ele era o único moreno e chamado, por isso, pejorativamente de brasileirinho.

O lúdico da narrativa joga com o espaço constituindo a memória, e a memória, por sua vez, recria os espaços de ontem como uma utopia fraudada. Assim ele não tem mais certeza da sequência das casas em que morou. Não por acaso, repetidas vezes aparece a expressão “não me lembro”. O fluxo não lógico de cenas dá ao leitor um mosaico aleatório, planos que se superpõem, ocorrências que se embaralham e o fio a ligá-los é apenas a decisão presente do autor de lançar um olhar para trás e ali capturar o que interessa muito mais para a ficção do que para a biografia, pois tudo é teia, tudo é presente ou não existe. A consciência organizadora de agora encontra as lembranças estilhaçadas e esta via é o acesso ao tempo e a fatos contornados pela subjetividade.

Esta subjetividade traz a perda afetiva do cão enforcado nas malhas da rede; o pai a tocar violão para encanto do guri que, quando homem, pinta quadros com esta temática, fazendo o diálogo entre tintas e formas e música; a descoberta de mina de pedras preciosas no beco em que moravam por um vizinho lunático, até tudo ser desmistificado; o tio namorador e aventureiro que não queria trabalhar, nem estudar e, na vida em sociedade, procurava passar por rico; um outro tio que tem amante, palavra misteriosa a encantar a criança; o pai, nos tempos de glória e na profissão de delegado, vivendo um aborrecimento: ter de aprisionar parentes desordeiros e amigos envolvidos em tramoias.

Enfim, o mundo se enche de escaninhos e em nenhum deles o rapazote encontra guarida. Só o jardineiro lhe abre uma janela na penumbra: este é um grande contador de histórias e, certamente, sem o saber, um dos iniciadores do amor que o jovem mais tarde terá pela literatura, pela escrita. Tal jardineiro guarda relação com a caneta Parker 51 que o narrador recebeu do tio e depois foi perdida. Jardineiro-narrador e caneta vão sedimentando aquilo que ainda não está claro para o enunciador: sua opção pela literatura, até que compra uma gigantesca máquina de escrever (amarela) e passa a imitar as crônicas de Nelson Rodrigues, sem encontrar ideias e dicção próprias.

Juntando o escurecimento da casa com a separação dos pais, nosso personagem é ainda capaz de resistir à tristeza. E aí o autor, com pleno domínio da carpintaria verbal, evita mergulhar nas camadas psicologistas ou em tracejado sentimentaloide, mantendo um distanciamento do ocorrido – aquela era mais uma das operações paternas, talvez a confirmar o rosário de injúrias que comumente todos jogavam contra ele. É quando a mãe torna-se uma espécie de mater dolorosa, incorporando fisicamente o sofrimento e vivendo num estágio sempre pronto a explodir. Em contraponto, o menino resolve sobreviver, resistindo às amarguras e não se entregando às ondas da agonia materna, das quais o rio parecia prefiguração.

Nos beijos de despedida do pai, há um cheiro de serragem esmagada. Aqui, o sublime e o banal se enredam num nó existencial, fecundando o chão presente de quem vê o mundo de outro prisma. Para citar uma vez mais Bakhtin, este assevera que no romance moderno “tudo o que sai, salta do corpo (…), todos os lugares onde o corpo franqueia os seus limites e põe em campo um outro corpo (…)”, tais lugares são eliminados, fechados. A massa desse corpo individual, segundo o estudioso, é “rigorosamente delimitada”, sendo “um corpo individual fechado que não se funde com os outros.” Roberto Gomes quebra este cânon: o cheiro do pai salta de seu corpo e, ao entrar em contato com o filho, não elimina nem fecha os contatos com este. Pelo contrário: há aí uma espécie de fusão a marcar a lembrança para todo o sempre, uma abertura sem delimitação que será decantada ao longo da vida do escritor como um momento de encontro, como o serão as aulas de catecismo quando, em lugar do mergulho nos dogmas, o professor, um padre jesuíta, prefere ler e comentar versos da Divina Comédia. No interior dessas trilhas, dá-se também a descoberta da música de João Gilberto, a espraiar-se por toda a vida, na forma de um batismo em nova sonoridade a quebrar a velha guarda em que ele se educara.

A solidão, crucial em casa, avoluma-se no internato. Mais aí temos claramente um ritual de passagem: brigas, confrontos, futeboll, pequenos grupos de autoproteção desvelam que as casas foram escancaradas e não permitem mais o acolhimento e o aconchego de outros tempos. Então surge a vida pública – trabalho num banco, o contato com os amigos – e a vida secreta da real iniciação literária: ler de madrugada até conciliar o sono com o livro sobre o peito; martelar na máquina paquidérmica, até brotar alguma coisa cujo destino invariável é o lixo. Porém, a primeira crônica é publicada sob pseudônimo e ele tem a grande revelação: com o sofrimento se aprende muito mais do que com o conteúdo dos livros. Ainda assim, o caminho está traçado e não existe mais volta – as casas se definem por si mesmas, o homem se define por seus atos, o escritor se define pelo desafio de enfrentar seus fantasmas. Todas as casas são uma metáfora deste processo. As casas como deserto por fora e por dentro, as casas como propulsão e matriz, ponto de partida e ponto de chegada.

“Para mim, como para outros escritores de hoje, a literatura não é um passatempo nem uma evasão, senão uma forma – talvez a mais completa e profunda – de examinar a condição humana”. Palavras de Ernesto Sábato. E é o que faz Roberto Gomes em Todas as casas. Sem mirabolâncias tecnicistas, sem falsos vanguardismos de ultrapassados jogos de palavras, sem cair no engodo de confundir literatura com jornalismo, ele nos dá uma obra de contorno e conteúdo humanos, enriquecidos por seu viés irônico, levando-nos a questionar em que medida o passado tem condição de nos oferecer mina de exploração poética para expandir os cinzentos horizontes do mundo atual, tão debruçado sobre a mesquinharia do consumo, do dinheiro, do imediatismo.

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A câmara de inverno

Anne Michaels

Companhia da Letras, 317 págs.

Um livro tão esplendoroso que você não deseja terminá-lo. Já passou por esta experiência? Não? Então leia  A câmara de inverno. Fascínio do princípio ao fim. O poder da autora de criar linguagem é uma lição do bem escrever. A maneira como ela pinça dos fatos e objetos mais corriqueiros um modo de desvelar o mundo é poesia pura. Sua capacidade de transitar pelo pensamento analógico nos deixa boquiabertos por sua infiltração no discurso modulado pela beleza. A estética em alto grau. Não estas reportagenzinhas disfarçadas de romance que se escrevem por aqui.

Anne Michaels parte de um “fato objetivo”. No Egito será construída uma represa que inundará o templo de Ramsés. Este precisa ser removido para terreno mais alto. Pretexto para Avery, um dos engenheiros responsáveis pela obra, fazer considerações sobre o espaço, sobre a violentação de uma cultura e de uma preciosidade da História em nome do progresso. Obcecado pelo tempo, Avery discorre sobre o espaço de um modo geral: o geográfico, mas em especial o construído. O que significa um prédio? Que sentido tem morar nele e suas relações conosco? O que é estar numa casa, sua funcionalidade? Não pensem que surgem dissertações técnicas por aí. Fundindo conhecimento científico com uma profunda sensibilidade pela natureza e pelas artes, Avery desvenda sua visão e nela encontra um prisma para olharmos o mundo que obra atual nenhuma faz. Casado com Jean, uma canadense e botânica, ambos os conhecimentos específicos se espraiam por ilações deslumbrantes e líricas. Ela tem obsessão pelas plantas e sua percepção sobre estas é qualquer coisa de dilúvio poético sobre nossa mente. Os dois dialogam entre divagações sobre o passado. Com seus pais mortos, o quanto aprenderam com eles, a herança que eles lhes deixaram em termos de chaves para abrir portas inusitadas sobre o universo.

A perícia de Anne Michaels em captar filigranas discursivas que montam o verbo em tensão com o que é narrado, é uma lição de mestre.Que pesquisa esta mulher deve ter feito, sem cair na chatice do romance histórico. Lá pelas tantas, uma tragédia ocorre entre Avery e Jean, e suas vidas se separam. Jean encontra um artista tresloucado e descentrado: Lucjan que, na calada da noite, aproveita para pintar tapumes de construção. Sobrevivente do holocausto e do stalinismo, Lucjan desperta Jean para a carnalidade, não aquele erotismo explícito e pobre que todos estamos cansados de ler. Um erotismo sugerido como forma de arte e encontro entre experiências de traumas. Porque Lucjan é também poeta, com seus projetos absurdos, seu passado de horror, o amor da filha perdido Tudo isso se fundindo num plasma meio onírico, meio pesadelo que nos leva a perder a respiração E Michaels usa uma técnica interessante: coloca o travessão da fala do personagem, esquece-o, enquanto a fala deste vai tomando conta do enredo, expulsando o poder do narrador e fazendo pontes dialógicas com as mais diferentes áreas da cultura: música, pintura, política, arquitetura, culinária, escultura etc. Lucjan sonha acordado e Jean participa de seus sonhos. O romance se torna etéreo. A sua linguagem só cresce em considerações sobre a violência, os desmandos, a coragem, o heroísmo, a derrota, a adversidade, a assunção do amor, a resistência, o encontro de caminhos para o indivíduo em meio ao caos. As páginas dedicadas à destruição de Varsóvia e a consequente reconstrução valem por um filme daqueles bem feitos em termos de captação do inusitado.

Um grandioso romance, ao mesmo tempo simples, porque está centrado em sondagens que captam o ânimo do personagem em sua relação com o outro e com o entorno. Magistral é pouco para rotulá-lo. Admirável esta espécie de literatura não centrada no enredo, mas na prospecção das camadas constitutivas do personagem, sem cair em psicologismos. Tudo se passa no nível da palavra, desta como condão a flagrar as relações que nossa pobre vida cotidiana não percebe. Dá a impressão de que Michaels abriu uma antena parabólica sobre o mundo e foi captando o que há de mais raro neste para compor seu romance com força, destreza, particularidade, poder de altos voos e profundos mergulhos, imergindo nisto que podemos chamar de experiência humana. Desde a devastação de vilas, até o cuidado com uma planta que pode desaparecer, desde um prédio e seu signo urbano, até a abertura de uma floricultura sobre os destroços de Varsóvia, aqui cada lance vem emoldurado por uma argúcia no domínio da palavra que nos desperta uma angústia: como a literatura brasileira é pobre, com seus enredecos em torno de casais em crise, recheados por um sexo banal, triste arremedo do que se quer erótico. A câmara de inverno é um monumento. Um raro momento. Um livro que justifica a vida. Prazer e pensamento refluem dele, como os muitos rios que fazem parte do mapa existencial dos personagens.

Romance de invenção, longe da esterilidade laboratorial e dos malabarismos verbais. Fantasia ardente e exaltada que puxa por filosofemas a compor um quadro de atividade energética, pontuada pela engenhosidade de quem tem o que dizer e sabe fazê-lo. Romance que é um parêntese de êxtase porque os personagens não se limitam a “atuar”, como procuram “ser” dentro de uma elevação do espírito em constante contraste com o que o cerca. Lendas e recortes de culturas “exóticas” são fundidos no mito contemporâneo para decantar a perspectiva do progresso e mostrar como ele pode ser danoso, quando foge de critérios humanos. Toda a substância romancesca é melodiosa e pungente e adunca, ritmada pela angústia e por uma felicidade visceral que não se coaduna com o senso comum. Em suma, um hino ético que tem como pano de fundo interrogações profundas sobre o mundo em que vivemos, mundo que esquece o humanismo e a arte pela subserviência à tecnologia muitas vezes longe de atender às ansiedades humanas.

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