Marcelo Sandmann - Poeta

Lendo o livro A fio, de Marcello Sandmann - 7 Letras, 2014 - fui levado por ondas de agradáveis sensações, na certeza de estar diante de uma obra original que me confirma os trilhos de criatividade aguda deste poeta. O primeiro poema já diz a que veio o autor: síntese, ironia, brusquidão, linguagem seca. Não ao lirismo e uma voltagem imagética de algo que rompe o bom-mocismo que coroa boa parte da poesia que é feita Leia mais

POESIA RACIONAL

ESTÚDIO REALIDADE Rodrigo Garcia Lopes 7Letras      129 pgs. O início de Estúdio realidade é constituído por poemas enumerativo com pitadas surreais para mostrar a incomunicabilidade do mundo ou aquele fechamento que Bakhtin vê em todo poeta, quando este submete todas às vozes às suas necessidades enunciativas. Com um olhar para o cotidiano trivial como matéria de poesia, quando esta parece contaminada pelo tom  prosaico, Rodrigo Garcia Lopes tece uma poema cerebral, contido, sem nenhum derramamento por um lirismo Leia mais

A MAÇÃ ENVENENADA - Um romance-móblide

A MAÇÃ ENVENENADA MICHEL LAUB Companhia das Letras           199 pgs. Tensão do princípio ao fim. Porque há uma fatalidade retrospectiva pairando no ar. Desde as primeiras páginas sabemos que uma desgraça ronda o narrado e nossa atenção é atiçada na busca do que será este fato. O motor do romance gira em torno de um garoto de 18 anos. Morando em Porto Alegre, ele serve no CPOR e está dividido: faltar um final Leia mais

HEMINGWAY EM PARIS

HEMINGWAY E PARIS : um caso de amor Benjamim Santos                                                                                                 Gryphus                                   Leia mais

JEAN GENET POR EDMUND WHITE

GENET: uma biografia Edmundo White Record         782 p.   Edmund White tornou-se conhecido entre nós pelo menos por três grandes romances: Um jovem americano,  O quarto vazio  e O homem casado. Ele serve de modelo para aqueles que, no Brasil, fazem ou tentam fazer literatura gay, que pode ser gay, mas não é literatura. Não há, nesses livros brasileiros, prospecção nos conflitos dos personagens, não há trabalho burilado com a visão de mundo, não Leia mais

Pequenos combates e um descanso


 Dou a primeira batida no pano branco. A mosca se remexe um pouco e não cai. Mosca ou gato tem sete vidas?

Gregório bate por sua vez. Acerta. A mosca tem um breve acesso e fica paralisada. Foi fácil por que ela já estava tonta, eu disse.

Na quina do armário agora. Meu golpe é seco e forte. A pazinha de plástico amarela abriu uma pequena fenda na superfície trançada de quadriláteros. Visivelmente, as coisas pioravam para mim.

Da cozinha, um cheiro de carne na panela e cebola.

Gregório crava os dentes no lábio inferior. Fica um brilho úmido ali. Um fulgor elástico. Dois a zero para ele.

A outra mosca pousa sobre o Sagrado Coração de Jesus. Eu não me importo. Mando chumbo. A mosca escapa rápida. Em linha de ângulos quase retos. Revoluteia no ar, e a estátua cai em dezenas de pedaços.

Ela grita da cozinha. O que estão fazendo aí dentro?

Nem eu nem ele respondemos. Quase nos olhamos. Mais moscas vieram aos trancos. Ele esmaga uma sobre o lençol. Pequena, estreita mancha meio marrom, meio vermelha. Sorri alguma coisa além do verde da vitória.

Simplesmente três a zero.

Não esmoreço. Bato forte sobre o seu braço esquerdo. Ele se assusta. Porra, doeu e nem acertou. Seu calção negro é justo. Retrata o selvagem do corpo.

Na verdade, não estou interessado em moscas.

Meu coração acelera com o gosto de queda para o interior de imensos precipícios.

Ele volta a dar porrada na cortina. Mais uma desgraçada cai agitando as asas, pinotes e rompantes de quem vai se extinguir.

Sua pá é vermelha e mais nova. Mais rígida. Como a musculatura sadia de suas coxas.

Penso. Qual o segredo de tanta perfeição. As linhas exatas revestidas de pele enxuta. O tecido sem nódoas, sem dobras, as mínimas escavações que nada camuflam.

Calco de leve na coxa dele e encosto a mão. Ele sorri. Ali não havia nenhuma mosca.

O rádio é ligado na cozinha. Estação estranha. Música popular e internacional. Música sertaneja com duplas que guincham. A lamúria dos corneados preenche a casa, rasteja sobre os tapetes.

Gregório me olha. Porra, cada música que ela ouve. As palavras se arrastam acima da umidade luminosa dos lábios dele. Quando chegam  a mim têm um sumo pesado.

Sacudo os ombros. Fazer o quê? Não posso doutrinar todo dia.

Ele se estica de bruços sobre a cama. Tenta alcançar o rodapé com a pazinha. Acerta o ponto preto de movimentos frenéticos.

Aproveito e deito ao seu lado.

Acaricio suas nádegas. Os pomos, que volume! As linhas arredondadas terminam num quadrilátero de fascínio calculado.

Hubert Fichte diz que não há nada mais belo que uma bunda masculina. Pelo menos nada é mais que esta.

Ele ao meu lado. Tenho minha mão sobre suas costas. Sua carne, sua temperatura, o lento perpassar de sua respiração.

Ele larga a pazinha no chão.

Reclina a cabeça sobre os braços cruzados na borda da cama. Me olha longo, para seus olhos num instante de reflexão e avaliação.

Continuo viajando sobre suas colinas tesas, firmes. Vou de alto a baixo pelo vale estreito entre as nádegas. Sinto através do tecido sintético os pelos rígidos, minúsculos arames entrincheirados. Para proteger?

Quase sem movimento, vou encostando minha testa em sua face esquerda. É quente. Afinal, nele tudo é muito quente.

O cheiro da carne e da cebola inunda a casa. A música sertaneja vai manquejando sua lamentação entre ruídos de talheres, pratos, panelas. Ela diz alguma coisa lá da cozinha. Nós não entendemos.

A mosca remanescente passa veloz entre nossos rostos.

Lentamente, Gregório desvira-se e fica deitado de costas, sem tirar os olhos de mim, sem deixar de aceitar.

Outras moscas por aí. Pousam em locais diversos por pouco tempo. Nada importa mais, nossas pazinhas estão muito longe.

Olho para tudo que é ele, para tudo que constitui a forma dele, sua substância física. Está de pau duro.

Toco-o. Depois agarro. Ele sorri. Por cima do tecido, beijo aquela coisa aflita.

Com os dentes, abaixo a borda de elástico do calção. Os pelos brilham. O tosão meio bicho, meio humano, um cheiro empoeirado de planta na margem da estrada. Salta o caule, transborda a carne. Seu pau é moreno, afilado, me lembra a maquete de um bólide, de um artefato de guerra que poderia ser doce, se não fosse a guerra, e é doce.

Um clima de lento espaço de morte. Acaricio a glande. Rebaixo a pele. A polpa aveludada tem o mesmo lustro rubro dos lábios de Gregório. Encarnada, de matéria para aguentar grandes pressões, para amaciar cada estocada. Suporta a minha língua. Vasculho o pequeno orifício que leva a mundos estranhos.

Toco o seu pau com cálculo. Apenas com a ponta da língua.

As trincheiras do meu corpo querem lançar pólvora pelo ar. Minhas reservas vão além do nível suportável. É uma agonia que galopa entre garras muito violentas. Um buraco de ansiedade confrange o peito, oprime os ossos e os músculos numa pasta flutuante. Quando tenho uma reunião importante e a decisão mais drástica depende de mim, tenho sensações parecidas. No escritório, chapinho num tanque raso. Com Gregório, é o próprio oceano móvel debaixo dos meus pés, em torno de minhas mãos.

Prendo o pau dele com a boca, chupo a palpitação que se alonga envolvida em minha saliva.

Com lentidão e espera, ele sorri. Ai.

A música mudou. Propaganda de um imóvel. Eu aqui, como imóvel móvel que remove mais que montanhas.

Abaixo outro tanto o calção negro.

O instrumental fica todo explícito.

Seus testículos parecem estourar dentro da capa nem um pouco flácida. Dois pequenos olhos fechados. Ovos bem resguardados. Eles tramam a matéria. Mais esparsos, os pelos escuros estão reclinados no suor, na ânsia de Gregório a estirar-se feito o langor da borracha ao sol.

Ergo um pouco mais sua bacia e abro as coxas. Lá embaixo, entranhado, quase não visto, a entrada final está escavada e coberta de penugem espessa. Os anéis delineados no mínimo matagal. A reentrância de não sei o quê. Esgarço e enfio a língua, o dedo.

Mordo, chupo, aliso. Alimento.

De repente, a porta.

Corro para chaveá-la.

Ela grita da cozinha. O que estão fazendo tão quietos aí dentro? Antes de fechar a porta, eu respondo. Acertando a mosca.

(1990)

 

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Não poder estar lá

Traduzo a trova em teus dedos que não pude agarrar, enquanto a tela do cinema mostrava os horrores dos grupos de rapina que falam em liberdade e democracia e devoram carne humana para depois vomitar dólares.
Tinha ímpetos de encostar minha cabeça em teu ombro, um gesto assim torto, tão marginal frente àquela medonha tarefa de registrar as carnificinas que entram por todos os nossos horrores.
Como um bêbado enluarado, eu queria dizer te amo, esquecendo que não podemos ser românticos nestes buracos escarnecedores de bombas que explodem em nosso lugar. Neste momento, penso em parar as conversas íntimas e ir em busca de autores que insistem na viabilidade do amor em tempos de guerra. Sei que eles têm razão, até por que, quando o tempo e o espaço não foram de guerra, as marcas sobre a carne eram outras. Só que não é bem de filosofia que preciso agora. Preciso desatar o velho nó do peito que, sei, não tem mágico capaz, por meio do rito de seus dedos, de desatá-lo.
Eu ali ao teu lado, lembrando do sonho impossível. Impossível não pelo fato de estares noutro campo e bobagens tais. Impossível porque a minha cabeça, com todas as engrenagens em nada conformadas, ditou-me letra a letra que o amor que eu queria é insubstancial, é um ciclo de destroços para quem como eu flutua entre o terror e o pânico. Ou seja: reconheço a natureza de minha propulsão, sei onde deveria estar e exatamente este saber me faz ver que não posso mais tatear na luz desta escuridão baça, por sinal, a única que conheço, como meu organismo diz, de novo, letra a letra, que ali inexiste nicho em que pudesse me encaixar.
Não preservo mais em meus baús os escassos arquejos de uma esperança. A luz se faz forte: não tenho como estar lá, misericordiamente, não poderei nunca estar lá, e é este amadurecimento, esta decisão florescida na doença, a perplexidade de minha maior herança da última queda, da última vertigem, do último relance de inferno em que perdi meu corpo.
A história é esta: tenho como espaço e meio de ser a tenacidade de celebrar a vida em seus pequenos detalhes, para não malograr lá, onde minha morada me esperava. E a obstinada amargura de minha angústia nega-me o passaporte: não, não devo me dirigir para o lugar que é meu por direito de meus sentimentos criados e recriados com as vistas lá. Não, lá, não, é o que reconheço.
Não evoco nenhum pacto, uma vez que jamais fizemos tal tipo de coisa. Na generosidade escapadiça da vida, acreditei com cada fibra em tom maior, com graça e zelo que eu te conduziria para o meu campo e estas bobagens. E hoje sei o quanto ignorava os arenosos limites do impossível por mim mesmo moldado. Outra vez, não por tua causa e sim pelo material que fui empilhando na minha ação reativa à vida, até estar de todo no sistema interno de conflitos contraditórios a me gritar alto e bom som: plantei e não há como colher.
A três por dois sonhei e o cáustico atropelo do último ano me faz acordar sem autoindulgência. A história é esta: gostava de pintura, estudei pintura, me preparei com todos os apetrechos para a pintura, cheguei a fazer alguns quadros e agora reconheço: com urgência é necessário afastar-me de qualquer tela porque pintar me escraviza em obsessões que racham meu crânio e não posso mais suportar o que escapa pelas brechas.
Com racionalidade nada aliciante, só posso inventar: a pintura restou como estímulo estético, impulso para a vida, matéria de escrita – mas não tenho como vivê-la. Minhas fagulhas estavam, série por série, em fogueira que eu não saberia manter pelos naufrágios irresolutos que trago de outras mãos, em especial das minhas. Precisei abraçar um ícone de neutralidade anestesiante na névoa do reconhecimento: minhas estruturas falidas não suportariam o deslocamento necessário do cotidiano e, quando eu me visse em mim mesmo, estaria tão vulnerável que a demência da dor seria a primeira gota de cada manhã.
Este é o reconhecimento mais eficaz e sabotador que eu poderia desfrutar na curva perigosa dos 50 e poucos e que nem a tragédia grega foi capaz de tramar para aqueles que deveriam cumprir um destino para o qual nada haviam realizado para merecê-lo. Tento retornar ao essencial: o escrever e suas circunstâncias, sem pensar no coroamento entalhado com tanto vigor íntimo: tuas mãos pousadas em minhas mãos me dando alento e recebendo de mim o incenssamento galante de quem convive. É esta a pena concreta: daqui para a frente, nada de convivência, nada de repartir, nada de intercâmbio. Assumo a autonegação amorosa com a clarividência de quem vê uma cicatriz crônica aberta a toda hora no peito. Não faz mal. E faz. Vivemos para tentar entender, e venho entendendo o turvo círculo em que me encerrei por erro de opção, não mais pela razão antiga: ser uma fraude; e sim pela razão nova: devo recompor algum nexo nos meus dias e isto significa não ir para lá, não destilar pelo filtro do sentimento um desconcertante voar hábil apenas para quebrar o resto do cotoco das asas.
Não faz mal. E faz. Minha especulação não é mais espasmódica, é o senso médico de conhecer o poder de minhas obsessões e quanto elas travariam qualquer várzea ou riacho que pudéssemos atravessar. A incerteza de ser constitui-se hoje em certeza de não poder/saber amar. Sobressalto? Algum. E como li em certo lugar, ninguém escolhe sua vida, nenhum de nós. Em sendo assim, registre-se quê!
Sombras, silhuetas e silêncios dormem recostados nas paredes de minha alma. O porto nunca deixou de ser remoto e minha ciência hoje me absolve de todos os crimes: não existe, não existirá, ainda que tenha ajuntado madeira de lei e cimento. A insegurança do meu reino raso está mais clara do que nunca. Outra página do livro das aprendizagens. E alguém até pode dizer: mas, deste modo, sua vida terá de ser mais suportada do que desfrutada. Retruco: para quem não é?
Ao teu lado, parecias mais livre do que nunca, livre das teatralizações, dos cinismos, das linhas dos limites puxados para o centro. E quem garante que minha percepção é verdadeira? Gostaria de com os dedos percorrer teu peito e isto nada tem a ver com a busca de uma excitação banal. Seria um modo de reconhecer a matéria de que somos feitos. Por acaso já não a conheço? E nem há dor, neste pequeno ensaio de desembriagado e desabrigado.
Há o cansaço de quem sabe o que tem pela frente: recompor a vida como organismo, concentrar-me nesta tarefa, para ir formatando o futuro com aqueles que nunca (nunca?) me abandonaram: os livros, e longe, muito longe da essência pulsante a querer ditar caminhos. E assim, a série de ações que devo executar é sucessiva e ininterrupta e nela, com a mente aguçada, anseio ter pelo menos mais alguns dias e neles mover os símbolos de onde estavam para outras cercanias.
E se tivesse agarrado tuas mãos? É reconfortante saber que resisti a tal apelo. Caso contrário, hoje eu estaria sob a escravidão previsível e o recolhimento não seria possível e o festim de minha solidão, travada pelo buraco azul de tua falta. Não me faltas no grande vazio que deixas. É irremediável dizer isto. Meu destino depura-se feito caverna que será habitada. E para quem encontrar nesta atitude boa dose de resignação, posso contrapor apenas: sobrevivo com os meios de minha abnegação para não enlouquecer. Sei que esquecer de nada vale e é ilusão. Nunca esqueci, nunca esquecerei, pois de ti vinha a grande calma, o arcabouço da essência hoje reconhecidamente afastada. Não esqueci coisa alguma, do cheiro aos muitos presentes trocados. Vi onde estou e aqui vou ficar, embora saiba que deveria estar lá, o que não posso em qualquer circunstância. Entendes, será, do que estou falando?

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Garoto Negro

É tortuoso empenho manter o solo cristalino para canoas trazerem de tua presença o negror que me abastece com asas de vida de viés. Tudo tão esplêndido e ao mesmo tempo soturno. Se te olho por instante a mais, pensas logo em desprezo e te voltas para um outro lado qualquer, feito escravo com medo do azougue ou simples criatura premida pela alteridade branca. Ignoras o quanto te compreendo, o quanto preparei minhas mãos para a navegação nestes cabelos baixos. A astrologia de teus olhos estanhados boiando no branco de puro azeite não te revela em astros íntimos minha admiração, o encanto do devoto, o fervor diante da bela carne que emoldura as roupas com suavidade e aderências provocativas. Na tua história, com certeza, nunca houve o milagre que estou pronto a oferecer: a geometria de meus apelos e sentimentos convergindo para a exortação muscular de tua beleza. Nela ultrapasso qualquer malogro e quero que acredites nisto, e com fé de peito aberto, ali luze meu olhar. A complexa miscelânea de sentimentos e impulsos e afetos a fazer minha cesta básica no dia a dia se volta para tuas linhas, porque nelas encontro a perfeição de sistemas humanos depurados pelo silêncio da genética e pela evolução de teus próprios enleios na luta pela sobrevivência. Ausente está qualquer fluxo de equívocos e tabus esclerosados nas velhas rezas do preconceito. O que te olho, te olho com devoração de quem vai ao museu, vê belo filme, inebria-se com a música. Não querem tais palavras afirmar que te afasto de mim como ícone exótico. Pelo contrário, somos tão humanos que te queria mais próximo e te quero mais próximo. Devias levantar a cabeça e acreditar no que meus olhos soltam em cascata lenta. Ouve a nostalgia transitiva que se equilibra entre meu peito e o teu e, assim, queria apenas te tocar para que, na solicitude, ganhasses consciência de tua graça. O que não quer dizer que me ponho um patamar acima e de onde te ensinaria qualquer arte de lidar com as sobrevivências. Estou falando de escolhas. Meu gesto guia-se na direção contrária a qualquer degrau além do teu. Me incomoda o retraimento contra a parede que vejo em ti. Queria que firmasses teu olhar no meu, como um desses dançarinos rappers que, com seus gestos eroticamente simétricos, sincronizados, escarnecem do bom comportamento e não temem apregoar suas formas ocultas. Elas são música. Arremete teu olhar contra o meu e pergunta: “O que foi, cara?” Aí, talvez, eu diga: “Nada, não. Só to vendo como há beleza no mundo.” A partir deste instante, a possibilidade da aproximação irá se insinuando em nossos encontros esporádicos e o que, num momento, foi cordial, benigno, obra do mero acaso, e de figuras distanciadas pelo teatro da cidade, estaremos um passo mais próximo e seremos outra coisa que meros usuários de ônibus: seremos amigos, teremos o que tocar. E um dia dirás: “Era sério mesmo aquele papo de beleza?” Confirmarei com mais ênfase. Responderás: “Gozado, nunca imaginei que alguém visse beleza em mim.” Eu retruco: “Eu sei, conheço todas estas senzalas em que somos castigados para nos anular. Mas olhos de amigo ensinam.” Estaremos eriçados com nossas palavras a bordo e à beira de qualquer fato, e esperarei o momento de nos cingir num estreito abraço. Que nossos peitos se fundam para nunca mais haver espaço entre eles. E se ficarmos tímidos, sem palavra, os copos boiando na mesa em que navegamos por uma noite de calor, lá fora o musgo crescerá nas árvores, as aranhas farão suas teias para envolver as vítimas em gosma. E tímidos e sem palavra e medindo o contraste de nossa pele que, espero, a esta altura seja uma complemento da outra, um laço de chegada, bastará que um finque no outro o olhar direto e com certeza o acalanto retomará o seu lugar. E ali, naquela noite, dois marinheiros vindos da lua ou das ilhas, nós dois embarcaremos na tênue vitória sobre nossas propensões à desagregação. Desconheço tuas expectativas e muitas das minhas. Ainda assim, da mesma forma que as paredes falam e os copos rodopiam entre nossos dedos nervosos, estaremos nos adaptando um ao outro, e nossas circunstâncias serão nossa constância, nossa abertura a esta corrente elétrica que nos roça a todo momento. Seremos amigos. E mesmo nada sendo realista neste mundo, sei que estarei sendo amor para ti e tu, para mim, e teremos um outro senso de realidade: cada um estará dentro da pele do outro, pois é para isto que aconteceu a amizade e seu fervor. E o amor que é uma esfera não controlável da vida interior e da cor da pele, estará atualizado no tocar das mãos, no brinde que os corpos fazem por estar juntos, mesmo em silêncio, e este é o rumo que desejo e espero ecoar em tua beleza negra de garoto que preenche muitos dos espaços transtornados entre a matéria do dia e a matéria do corpo.

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Paulo Venturelli nasceu em Brusque, SC, no Verde Vale do Itajaí, em 17.12.50. Filho de Valério Venturelli e Bertinha de Limas Venturelli, operários tecelões. Menino tímido, frágil, cheio de perguntas, não teve uma infância das mais venturosas. Em 59, começa o primário no Colégio Santo Antônio, das irmãs da Divina Providência. Notem bem: colégio particular, pago pelo pai operário. O Brasil era “outro”, antes de golpe militar de 64. Aprendeu a ler com a Irmã Celeste – o nome já diz tudo.

Em 1963, entra para o internato Sagrado Coração de Jesus, em Corupá, SC, agora sustentado por bolsa de estudo, cavada por seu pai entre políticos de Florianópolis. Ali completa seu ginásio.

Nesse meio tempo, a família muda-se para Jaraguá do Sul. O pai, líder sindical, não era bem visto pela classe dos patrões. Nesta cidade, entre trancos e barrancos, Venturelli completa o científico, entre 68 e 73. Ali, científico era coisa de rico. Funcionava pela manhã, e ele tinha de trabalhar para manter-se e ser Jó – na espera de abrir uma série à noite.

Fato interessante: no ginásio, ouviu de seu professor de português: “quem quiser ser inteligente na vida, precisa ler pelo menos um livro por semana”. Foi o grande insight em meio às tempestades da adolescência. Lendo com cuidado, descobriu a literatura e despertou para a paixão que o acompanha até hoje. Lendo muito, passou a ter ideias. As tradicionais e chatas redações da escola passaram a ter para ele outro significado. Os textos acabavam saindo bem e o professor os lia como exemplo para os colegas. No começo, um deus nos acuda, terror. Sentia-se pelado em público. Depois, ego massageado, percebeu-se pela primeira vez valorizado pelo grupo. A timidez, a introspecção, as angústias cederam um pouco de espaço à estranha alegria de escrever. Foi quando decidiu: “é assim? então vou nessa.” Escreve até hoje. Avalie-o pelo blog.

Cursando o científico, não se deu bem com as tais “exatas”, em especial com a matemática. Outro fato salvador: criara uma coluna no jornal da cidade, em que arriscava publicar os primeiros contos, poemas, algumas resenhas. O professor de matemática, também diretor do colégio, dava suas notas na disciplina, a partir dos textos publicados na gazeta. Não fosse isso, estaria patinando ainda em equações e determinantes que nunca entraram em sua cabeça ocupada com livros, escritores e suas vidas.

O Ano de 74 – um passo arriscado em busca de aventura mais saborosa: larga o interior e vem para Curitiba. Cursa Letras na UFPR. Tem a ousadia de destacar-se naqueles tempos de chumbo grosso e é convidado para ser monitor de literatura brasileira, auxiliando professores na pesquisa e nas aulas. No final daquele ano, entra para a Casa do Estudante Universitário (CEU), um paraíso de vida em grupo que lhe permite terminar a faculdade de forma mais amena.

Trabalha à noite no Serpro como digitador. As aulas são pela manhã. À tarde, estágio na Fundação Cultural de Curitiba.

Na CEU, tem a satisfação de encontrar uns iguais: outros idealistas apaixonados pelas letras, pelas artes e por esses caminhos sem margem. Formam um grupo compacto. Montam semanas de cultura, agitam o torpor de anos em que só o silêncio era permitido.

Formado em 78, passa a lecionar língua portuguesa no Colégio Sion, sob o comando de soeur Cristina. Dois anos de aprendizado e é convidado a retirar-se. As tais incompatibilidade ideológicas, tá sabendo?

Passa a trabalhar no Colégio Medianeira, dos padres jesuítas (já percebeu o que dá de padre, irmã, irmão, santo… – até parece!). E aí mergulha num oceano livre de fronteiras e portos seguros. São dez anos de experiências radicais. Abole o ensino da gramática formal, muda a natureza da avaliação, centra pés e mãos na leitura de textos. Queria isto: que seus alunos se tornassem leitores. E muitos alunos aderem, companheiros de encruzilhadas, transformando-se em leitores. Até hoje os testemunhos não param de chegar. A experiência foi tão densa que a Secretaria Estadual de Educação chamou-o para, baseado no que fazia no colégio, apresentar uma proposta de ensino de língua para todo do Estado.

A década de 80 também é marcada por suas atividades no teatro. Além de lecionar Literatura Dramática, História do Drama, Estética do Drama, no Curso Permanente de Teatro, do Teatro Guaíra, mantém o grupo “Todo dia tem neblina no horizonte.”Com estes atores, dirige as peças “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque, “Yerma”, de Lorca e “O verdugo”, de Hilda Hilst.

1982 é o ano do casamento com Libera Regina Costacurta Cecon, dueto que ainda perdura, karma que ela carrega com paciência e silêncios pontuados por alfinetadas.

A partir de 1990, outro capítulo: concursado, entra como professor na UFPR. Área: literatura brasileira e afins. Começa seu mestrado, defendido em 94: A carne embriagada – uma leitura em torno de João Silvério Trevisan, que não gostou nada da reflexão e resolveu espinafrá-lo. Banca: Luiz Mott, Carlos Alberto Faraco e Rosse Marie Bernardi, sua orientadora.

Se não lhe falha a memória, em 97 inicia o doutorado na USP. Tese: Literatura e homoerotismo em circuito fechado – Adolfo Caminha e Silviano Santiago. 2001. Banca: Tânia Pellegrini, Flávio Aguiar, Marilene Weinhardt e Nádia Battella Gotlib, a orientadora. E está sacramentado outro caminho: a pesquisa das relações entre literatura e homoerotismo, na qual permanece, estudando hoje em dia a poesia de Roberto Piva.

Pelo alto é mais ou menos isto. Publica em revistas especializadas e em periódicos fora do eixo acadêmico: ensaios, resenhas, notas de leitura, contos, poemas, entrevistas e corre o Brasil para palestras, cursos, oficinas.

A tal obra pode ser conferida na página específica.

Não tem filhos, atento à lição machadiana. Muitos afilhados, sim, de todas as ordens e colorações de crenças e convicções.

Para registro: foi um petista roxo. Mas a História ensina. E ensina por meio de pesadelos, desses que acompanhamos até hoje. Entretanto, continua fiel aos fiéis: Rosinha, Tadeu Veneri…

Lê muito. Uma questão de respirar com saúde. Todo dia. Quando dá, o dia todo. Nas férias, um livro por dia. Só acredita nos livros, no conhecimento, na possibilidade do homem inventar-se homem com o outro.

Tem vários orientandos e orientados. Combustão para o cotidiano.

Faz há sete anos terapia com o Dr. Dirceu Zorzetto Filho. Lembram daquela infância? Pois é. Agora é aprender a dançar com os fantasmas. Que afinal estão por trás dos textos murmurando.

Torce para o Clube Atlético Paranaense. Paixão vital. É contra o grito: “Atlético até a morte!” Prefere “Atlético enquanto vida!!” Em algumas fotos, vocês vão perceber uma marca na testa de Paulo. Deve-a à paixão rubro-negra: quando o Atlético perdeu a Sul-Americana, ano passado, no descontrole, a testa foi direto para uma banqueta e…

Descrê de uma sociedade que mede tudo pelo dinheiro. Do capitalismo sustentável. Se cortar uma árvore dá lucro, “eles” vão deixar de cortá-la? Alimenta a utopia nos moldes de Eduardo Galeano: “(A utopia) está no horizonte. Aproximo-me dois passos. Caminho dez passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte fica dez passos mais longe. Por muito que caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para caminhar”. A História não acabou. Humanidade sem utopia é boi no pasto sob a canga dos meios de comunicação.

Autores de explosão: Machado, Guimarães, João Gilberto Noll, Philip Roth, Paul Auster, Ian McEwan, Amós Oz, Gonçalo M. Tavares, Thomas Mann, Sartre, Virginia Woolf, Rosário Fusco, Drummond, Pessoa, Peter Handke, Roberto Bolaño, Bernardo Carvalho, Lúcio Cardoso, Saramago, Artaud, Pasolini, Mishima, Nelson de Oliveira, Doris Lessing, Gide, Beckett, Piglia, Ishiguro, Herberto Helder, Tabucchi, Cruz e Sousa, Orides Fontela, A. C. César –

Ligação intensa com a música. MPB – Chico Buarque , Renato Russo, Ângela Ro-rô, Olívia Hime, Ana Carolina, Cazuza, Nana Caymmi – Jazz: Jimmy Scott, Harry Connick Jr., Chet Baker, John Lee Hooker, Oscar Petersson, Bill Evans, John Pizzarelli, Leny Andrade – Erudita: Charpentier, Gluck, Puccini, Mahler –

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