Marcelo Sandmann - Poeta

Lendo o livro A fio, de Marcello Sandmann - 7 Letras, 2014 - fui levado por ondas de agradáveis sensações, na certeza de estar diante de uma obra original que me confirma os trilhos de criatividade aguda deste poeta. O primeiro poema já diz a que veio o autor: síntese, ironia, brusquidão, linguagem seca. Não ao lirismo e uma voltagem imagética de algo que rompe o bom-mocismo que coroa boa parte da poesia que é feita Leia mais

POESIA RACIONAL

ESTÚDIO REALIDADE Rodrigo Garcia Lopes 7Letras      129 pgs. O início de Estúdio realidade é constituído por poemas enumerativo com pitadas surreais para mostrar a incomunicabilidade do mundo ou aquele fechamento que Bakhtin vê em todo poeta, quando este submete todas às vozes às suas necessidades enunciativas. Com um olhar para o cotidiano trivial como matéria de poesia, quando esta parece contaminada pelo tom  prosaico, Rodrigo Garcia Lopes tece uma poema cerebral, contido, sem nenhum derramamento por um lirismo Leia mais

A MAÇÃ ENVENENADA - Um romance-móblide

A MAÇÃ ENVENENADA MICHEL LAUB Companhia das Letras           199 pgs. Tensão do princípio ao fim. Porque há uma fatalidade retrospectiva pairando no ar. Desde as primeiras páginas sabemos que uma desgraça ronda o narrado e nossa atenção é atiçada na busca do que será este fato. O motor do romance gira em torno de um garoto de 18 anos. Morando em Porto Alegre, ele serve no CPOR e está dividido: faltar um final Leia mais

HEMINGWAY EM PARIS

HEMINGWAY E PARIS : um caso de amor Benjamim Santos                                                                                                 Gryphus                                   Leia mais

JEAN GENET POR EDMUND WHITE

GENET: uma biografia Edmundo White Record         782 p.   Edmund White tornou-se conhecido entre nós pelo menos por três grandes romances: Um jovem americano,  O quarto vazio  e O homem casado. Ele serve de modelo para aqueles que, no Brasil, fazem ou tentam fazer literatura gay, que pode ser gay, mas não é literatura. Não há, nesses livros brasileiros, prospecção nos conflitos dos personagens, não há trabalho burilado com a visão de mundo, não Leia mais

Coração apertado

Marie Ndiaye

Cosac Naify, 266 págs.

Infernal. Diabólico. Dantesco. Claustrofóbico. Esmagador. Qual o melhor adjetivo para qualificar este romance que arrebata, tritura, instiga? Uma perfeita fusão de Beckett e Kafka. Beckett, pelo vazio, pelo nada. Kafka, pelo absurdo, pelas situações inusitadas. Marie Ndiaye conduz um enredo que nos deixa perplexos da primeira à última página e ao terminar de ler, ficamos mastigando algo azedo, com o estômago empedrado. A história, só pinçando alguns elementos, para não estragar o sabor da surpresa, o sabor da descoberta, gira em torno de Nadia, a protagonista-narradora. Ela é casada com Ange. Ambos são professores numa escola. De repente, a troco de nada, eles tornam-se execrados pelo estabelecimento de ensino e pela comunidade em geral. Perdem o emprego e são hostilizados por todos, sem haver uma razão plausível para isto. Até que, um dia, Ange é ferido: levou uma facada ou qualquer coisa parecida e está com enorme ferida no ventre. Recusa-se a ser tratado, porque tem certeza de que o médico da família o matará por eles serem o que são. Mas o que eles são? Colocada numa roda-viva, num poço de areia movediça, quanto mais Nadia quer saber o motivo dos acontecimentos, menos ela toma pé da situação. Pior: pelo que as pessoas dizem, a mola propulsora de tudo é conhecida por todos, que se recusam a esclarecer qualquer detalhe. Alguns remetem à TV, mas Nadia e Ange, por princípio, não costumam assistir à televisão. As sombras decaem sobre ela, e um rolo compressor a coloca num beco-sem-saída. Nadia chega a pensar que tudo se deve porque são superiores, exemplos de virtude. São cultos, se recusam ao consumo, não têm o padrão de vida comum a todos. Pelo contrário, enquanto a onda é possuir bens, eles têm prazer em economizar e assim acompanhar o quanto sua fortuna cresce. No rolar das circunstâncias, somos inteirados de que Nadia está no segundo casamento. No primeiro, teve um filho, Ralf. Este é homossexual e casado com Lanton, chefe de polícia. Nadia admira e ama Lanton mais que ao filho, por quem sente uma irritação nunca explicitada. Por pressão do pai, Ralf larga Lanton e casa-se com Yasmine, com quem tem uma filha, Souhar, nome que Nada simplesmente abomina. Mas lá pelas tantas, enquanto todo mundo sabe que Yasmine é a esposa de Ralf, numa carta deste à mãe, ele se refere à Wilma, sua mulher. Mas quem é esta… Se não bastasse esta ordem de ocorrências e para acumular as desgraças, Nadia e o marido têm um vizinho que detestam e desprezam como uma pessoa de baixa extração e não confiável, Noget. E é justo este que vem ajudá-los na fase deteriorada que estão enfrentando. Ele não apenas auxilia nas tarefas domésticas. Apodera-se do apartamento, “cuida” de Ange, enquanto o ferimento deste exsuda pus e enche o quarto de miasmas terríveis e, em especial, cozinha. Faz a as refeições mais suculentas possíveis. Nadia tenta resistir e mesmo com todo o nojo que sente por Noget, cede à tentação e passa a degustar com voracidade os pratos daquele. Com isto, ela vai engordando. Todo mundo quer saber se ela está grávida. Ela alega que é uma questão de menopausa. Noget é insistente na afirmação de que se trata de gravidez. Tudo se passa na cidade do Bordeaux. E até esta muda sua configuração espacial e urbana para atormentar Nadia. Que não encontra mais as ruas e praças conhecidas. Uma névoa com cheiro de lodo torna o mundo ainda mais macabro, desnorteando a narradora que perde suas referências. Então ela decide fazer uma viagem para visitar o filho e os acontecimentos tomam ares de tragédia. Paro por aqui, porque qualquer menção ao que ocorre seria pálida demais para dar conta do que efetivamente vai envolver nossa protagonista. O importante é ressaltar a frieza, o distanciamento, a técnica usados por Ndiaye para pintar as cenas que nos aterram. Como tudo nos vem do ponto de vista de Nadia, as chaves que esta tem para destrinchar suas emoções reativas frente ao caos são dignas de nota. A autora consegue fazer um estudo da psique humana como só um grande romancista é capaz. Elabora um corte longitudinal em Nadia, e vai nos mostrando, camada por camada, a formação desta mulher e, ao mesmo tempo, desmonta com a visão que ela faz de si e com as relações que ela tem com o pretenso mundo em que vivia. Nadia se vai mostrando dentro de uma redoma de egoísmo insuportável e ficamos na dúvida de suas palavras são confiáveis, se, por sua vez, não é ela que está distorcendo tudo, ou escondendo algo que o leitor não pode conhecer. E para tanto, Marie Ndiaye não usa um discurso psicologista e empolado. Sua linguagem é límpida, escorre com facilidade, sem artificialismo, sem rebuscamento. Contido, direto, fotografando de frente o que se passa com a protagonista, assim é o romance. Somos envolvidos por uma poética do despojamento de quem tem em mãos uma grande história, sem fazer alarde disso e levando o leitor a tensões que não o deixam largar a página. Com crueldade calculada, a autora tem meios de revelar as idiossincrasias humanas, mas, distante, não julga. Deixa esta tarefa para o leitor. E somos nós, sem fôlego, que precisamos nos virar com esta galeria de elementos bizarros e ir dando os pontos no tecido esgarçado que, no final, nos deixa cheios de perguntas, sem uma definição precisa para o que acabamos de ler. E é neste ponto que a escritora se mostra a grande artífice: faz arte de fato, inoculando em nossas mentes algo novo, difícil de classificar, que foge das nomenclaturas e dos gêneros a que estamos acostumados. Seu romance é um artefato original. Temos de nos livrar dos pré-conceitos e lê-lo com as veias abertas para receber sua infusão e lidar com esta de forma racional, porque o chamado é pela razão contestadora e não pelo emocionalismo barato. Seu poder de fogo vem de uma escrita límpida, quase transparente, que nos ilude com seu falso realismo, porque nos leva por sendas de interrogação que só a literatura sabe fazer. Como diz Beatriz Bracher, que assina a orelha do livro: “Coração apertado é surpreendente e terrível até o final. Um dia depois de terminar de ler este livro, você será uma pessoa mais feliz do que um dia antes de ter começado a lê-lo e, certamente, mais feliz do que enquanto o estiver lendo. A escrita da francesa Marie Ndiaye é límpida e elegante, sem qualquer afetação. Nada parece ter sido escrito com o intuito de chocar ou confundir. O medo que pulsa aqui não é o feito de frases curtas e cenas chocantes, é construído com frases completas que fluem tranqüilas. Deslizamos para dentro de uma cidade cada vez mais amorfa, sem arestas que justifiquem o nosso estranhamento.” Se você estiver em busca de algo original para ler, mergulhe neste livro.

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Pequenos arabescos

1.

As noites afunilam-se pelas bocas e os homens bebem estrelas. Ficam embriagados de luz e dançam nas ruas, formando nova constelação de pequenos sóis.

2.

Entre os dedos da mão do velho, a aranha tece suas teias. No centro de cada filigrana, deposita minúsculo diamante. Com as vistas embaçadas, ele percebe um longínquo brilho no interstício dos dedos, mas não sabe avaliar do que se trata.

3.

Os muros pousam de leve sobre as calçadas. As calçadas estiram-se brandas ao longo das ruas. As ruas encompridam-se suavemente em curvas lentas e serenas. Os homens pisam duro.

4.

Genet criança meditava numa privada, ouvindo os sons do mundo. Depois, fez de seu corpo uma longa, contraditória e ininterrupta festa, passando pelo circo, pelo cinema, teatro e literatura. Em criança, eu subia até o galho mais alto de uma goiabeira, onde devaneava, pensando o mundo nas formas e cores que via. Depois, metamorfoseei meu corpo num constante e ambíguo e intermitente silêncio, rede de lacunas, intercâmbio de vozes nulas ou mudas.

5.

A melosa canção vinda pelo rádio dizia que o amor nos dá asas. Amou a primeira vez e perdeu as pernas. No segundo amor, os braços. E assim por diante. Até que se viu reduzido a um pequeno coração batendo solitário no meio da praça.

6.

Devorou fatias imensas de silêncio. O que não fez dele um homem mudo. Pelo contrário. Suas palavras voavam pelo mundo a toda hora. Mas lhe faltava algo essencial: o tempero do sentido.

7.

Na distância, os cães ladram, tornando a noite mais comprida e aveludada. É como se fossem naus sem rumo, no desespero por um porto onde nunca ancoram.

8.

Amou tanto, mas tanto, que seu coração cresceu de forma tão desmedida que não podia mais entrar em casa. Passou a vagar pelas ruas. Não faltou dedo para apontá-lo, acusando-o de vagabundagem. Acusação que ganhava mais ênfase quando alguém lembrava: e tem diploma de agrônomo, o malandro.

9.

Ouviu de Capitu algo muito sutil, dito ao pé do ouvido. E resolveu calar-se para não estragar o prazer dos que imaginam ver nela um enigma indecifrável.

10.

Quando, na Praça da Espanha, encontrou-se com Dom Quixote, compreendeu porque a vida toda fora chamado de cabeça-de-vento.

11.

Antes de deitar-se, K. borrifou a casa com vários inseticidas contra barata e outros insetos. Ao despertar, sentiu-se com a mente leve e uma inesperada energia alegre tomava conta de seus membros. O corpo bailava sem o comando da vontade, na mesma dinâmica do vôo da mente. Talvez jamais se libertaria do sentimento de exultação.

12.

Ele gostava tanto do mar que passava o ano inteiro pensando nas férias de verão, temporada de praia, lazer, vida mansa. Naquele ano, a ressaca foi violenta e arrasadora, avançou por toda a orla, levando inclusive a casa dele. Que não se aborreceu. Preferiu compreender o estrago como um sinal das águas: elas também o amavam e queriam levar dele algo para sempre.

Assim, roubaram-lhe a casa e a esconderam no fundo de si mesmas.

13.

Pisava tão levemente que seus passos nunca eram ouvidos. Um dia, bebeu além da conta e chegou em casa aos trambolhões. Seu filho pequeno, percebendo a mudança de atitude, comentou: Ih, o pai hoje errou de tom.

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Bailarino

Bailarino fui e sempre dancei em frente às grades, nos pátios das feras, na boca da noite de revés. Dancei no avesso do tempo negado, aquele tempo de transformar pérolas em porcos, dancei por ali, para tirar da noite a fatia do creme mais azedo. Bailarino fui e sempre bailei no oco do olho do rei, na margem das coisas desencontradas, com pés e mãos amarrados no derramado da hora. Desencontrei o mar aberto e o mar fechado, os navios nas ondas vesgas, os peixes de espada em punho escrevendo no ar mensagens que desprezei. Elas ultrapassavam minha leitura e pus-me ao largo, sabendo que dançar é arte de pouco caso. Bailarino fui e sempre bailei na curva da reta geometria, ali onde os garotos mostram seu frescor de quem vem para a vida com todas as curvas pronunciadas em alfabeto silencioso, em musgo de ocaso, como quem grita um hino do tempo no tempo de ser firme a cada hora e se dizer belíssimo, porque é deles este destino. E se Sophia Breyner repete Rimbaud, eu faço o mesmo quando a reescrevo: “por delicadeza perdi minha vida.”

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No centro de um círculo

Conheço a geografia a indicar-me que não faço sentido. O que pouco importa na conjuntura de precipícios ajustados à minha porta no mundo. Avanço no labirinto com todas as velas pnadas e com licores extraídos das últimas palavras que usei com o vagar dos velhos sem destino. Talvez se auscultar o tempo, inexista alternativa, a não ser claudicar escada abaixo para apanhar os jornais de ontem. Manchetes que me assustam pela revelação do mundo. O instinto de recapitular me traz a sonda dos silêncios, mantidos dentro de casa como caixas de que é difícil se desfazer. Um vento a sudoeste reanima as cortinas. Elas refazem os quadros em sua dimensão semanal. Estou no centro de um círculo. Ele gira num sentido que sou incapaz de apreender. Ele é feito de fogo e doma as poucas palavras que ainda armazeno para me virar. Contra o vazio. Aí talvez entre a História com suas figuras que me despertam explosões de mundo. Mesmo que na superfície a platitude é contínua.

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Bruno

Por incrível que a fábula seja, surgiste como alguém comum entre tantos outros comuns. Variantes da mesma trivialidade. E no fugaz do reino deste mundo, foste tomando o palco da festa. Ícone isolado para meu coração confuso, signo de plena vida para meus olhos cansados de martelar na mesma insistência. Colorindo o instante com teu aspecto de garça, teus olhos verdes provocaram tantas relembranças. Entre elas as que apaguei por simples escrúpulo. Espírito vazado por histórias inabitáveis. E eras a fábula da aparição da beleza, num momento tão vulgar quanto outros. Logo tornado parêntese de poesia pela tua bravura de só te fazeres presente. E te distinguias pela poeira alada do que de futuro prometias à palavra. Esta ave arisca a que tudo infiltra. Até o impossível de uma visão impossível. Repovoaste a noite como Orfeu. Cantando tuas canções ligeiras, enquanto a mim me cabia fazer paralelos com outras equações só para não cair no pântano.

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Morte

Lembrar que tudo morre é ordenar as coisas em ritmo de finitude. Ter em cada adereço um desenho de despedida. Assim, chegada a hora, tudo se solta com mais facilidade. Tudo cumpre seu papel de cinza e névoa dissolvendo-se no parlamento do dia. Findar-se. Eis a história. Todas as lutas estão amadurecidas. Ergue-se o braço e toca-se algum contorno. Não como alguém que se vai agarrar a ele. Como quem está empenhado em desfazer-se do último contato. Assim o mar toca a areia. A areia arregimenta os pés coroados de brancura. Eles vão para o fim com o canto doce do corpo turvo. Até tudo tornar-se sombra no mais além do gesto.

 

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Morte II

A morte é uma forma de mastigar tuas feras. Cortar na garganta a derradeira palavra úmida. A morte é o último espaço vazio que habitas.

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Pablo, menino de Cataguazes

1.

A gente atravessa cidades, vales azuis entre montanhas que se perdem quase no além dos olhos, e mergulha num calor puro óleo e chega nos corredores do colégio – ao redor a cidade brame. O silêncio é um barulho pontuado de gente, de carro, de bicicleta. Ali, nos corredores, há quietude, sombra de plantas que confabulam, imensos baús a resguardar segredos de cabelos ouriçados e unhas pontudas. Estamos todos no salão, esperando as magistrais palavras. Estamos todos reunidos, porque discutimos não o grande destino, mas tão somente os gestos esparsos, concentrados em páginas escancaradas, donde escorre veludo e fel. Lugar do saracoteio de autores que nos sustentam. Então, à voz do conferencista que galopa por molecagens e pilhérias, encontro teu sorriso à beira do precipício, a trocar sombras comigo, a me dizer do pluripresente corcoveio. E o mundo todo se refaz em mistério bom de acolher, de ninar, de plantar em cada ângulo das mãos.

2.

Este barco entre estas montanhas, o que é? Este rosto ossudo, de nariz de precipício. Esta boca tão larga, feito cacimba a receber o sol e a dar o sol. Este coração de 13 anos sob a camiseta, campo fértil de inscrição qualquer em torno da arte, da vida, da coisa nossa. Estas mãos tão amplas, espalhafatosas. Este jeito meio camelo angelical. Esta brandura que escorre pela voz e vem à arena dos meus braços cantar o exato perfil da sombra mais exata, sob a qual escrevemos duas ou três curvas de nossas vidas. Este arcabouço que aos poucos se desfaz e vem da beira de um rio, onde reinventas a infância que não há mais e ainda insiste em sua beleza, nem dá mais mostra de montar o ritmo de ontem e ainda insiste em sua melodia. A prospecção de asas que se desfazem no éter. O fluído ardoroso que escapa deste barco aéreo a me singrar e a me faltar. A dizer pra mim frases que recolho neste feixe de dedos que jogo no ar de Minas pra sepultar o que sequer foi erguido da semente. Sei que tua morenidade mancha minha pele com a grande falta. O que levarei ao Sul?

3.

A garra que me ataca não é nuvem, não é rio. É fogo de voz calada, osso de silêncio em onda. Morte de vida intensa e vida de morte em camadas de horizontes superpostos, onde o coração é quina adunca pra refazer o infinito. O infinito se esconde em tua presença de absoluta ausência. A garra que me traça, borda ocos em meu discurso. Singra meus navios de dentro e do meio com sílabas de tanto tropeço. Eu me amarro em cipó de breu. E me estatelo nos amplos campos que me atrevo a aninhar no peito, nesta hora. E me envolvem em seus apelos, nesta manhã. A garra que me arca vem do século logo ali, antes da impossibilidade, quando o menino antecipa os deuses e estes criam o obelisco pra iluminar e cegar e arrebatar. Eu cheguei e as amarras dizem o meu som. E respiro entre rios de fagulhas pra nadar entre os banquetes de crocodilos famintos e toda vez convincentes, ainda que lerdos no peso do lamaçal. Eu cheguei e o meu discurso repete o mesmo espanto, circula a mesma gema, decanta o crustáceo do não. Como não ficas ao meu lado amanhã e amanhã e no depois, que encontrarei no Sul.

4.

Há um gesto esparso neste amplo espaço a fustigar a luz e o som do sol. Por ele, as raízes tremem e trazem ao pó dos lábios uma palavra só farrapo. Se andássemos por este mundo, pressentindo sombras e profecias e barcos geminados com roteiros, diríamos às praças onde nos recebessem que o corpo dói na mesma medida de cada passo, no mesmo tom do seu impulso. E por aqui andou Rosário Fusco e tantas tormentas criativas que, ao raiar do dia, o que vi me encheu de luz em espiral, no veludo da cegueira. É pra eu nunca mais esquecer a condição de fardo a ferver no sangue. E depositar na carótida os olhos desta meia chegada, desta inteira partida, deste fosco rosário de bugigangas que atravanca o ar de minhas correntes. Elas se estendem até tua casa desconhecida pra mim e me trazem dali a fôrma que te fez e é um grande vazio nesta hora de dedos tortos tocando a parede em busca do retrato. E ele vai doer, vai doer, vai cantar sua vagueza por tantos dias que nem sei.

5.

“O que a memória ama fica eterno”.– Adélia Prado.

Cataguases, dezembro/95 , durante o Proler

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Aquaera a dois

Que nunca mais se esquecesse das coisas ditas em ritmo de expectativa e ansiedade, tempo da permanência da miragem e de sua figura como parâmetro do maravilhamento, moldura da grandeza simples de cada verso lido ou escrito, a cada mensagem significativa encontrada num quadro, o detalhe como gadanho de um canto da vida. Todos esteselementos em verdade enlevavam a condição deles a um patamar fora do comum. Que então, nunca perdesse o rumo parecendo afunilar os dois por uma mesma causa afetiva, quando se ganha no braço e na fibra do cérebro as lides cotidianas de cada dia. Que nunca rompesse os frágeis laços colocando entre eles uma figura capaz de aguar em demasia a aquarela tosca que ambos compunham a medo e sem saber o modo adequado de continuá-la, nem com qual pincel.

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A longa noite dos ovos ocos

Longa e voraz a noite se distende ao comprido dos braços. É uma nódoa só de carvão, um fetiche de escamas partido ao meio, um incêndio apagado sem causa para o seu começo, sem necessidade do seu fim. A noite é vertical em seu intumescimento de fera adestrada para qualquer bote e se alguém duvidar, ela lhe pega pela garganta, sacode o corpo inteiro, até arrebentar cada centímetro das entranhas. Depois, senta-se sobre elas, cospe, mistura à umidade da urina esses restos, fazendo todo o locus perder seu lugar. A noite se proclama felina quando em verdade é devoradora e desova ocos sem fim. Na luz incerta e espatifada de seu corpo abriga os diabos solitários que gostam de voar com suas vassouras e pousar sobre os telhados, trazendo maldição para as casas escolhidas com um ovo em cada porta. Sua memória de fezes esculpe magma em cara retorcida e arrebenta os poucos elos a ligar criatura à vida, mesmo aquela mínima, desenvolvida e crescida no limo escuro do subterrâneo. A noite voraz e longa fermenta em ciclos ácidos, aninha tecidos e na abulia de seus ovos encrespados de pelos deixa a todos com o corpo em ferida, cortes, arranhados, longe do poder de cicatrização e próximos de dores de sal sobre o sangue. A noite é lamacenta e crua e por isso tritura os rostos, esmaga os olhos, as lembranças dos rostos e dos olhos, os traços deles na memória, em que canteiros de acantos servem de renovação para os ninhos. Com ela, nada é vívido no sentido do saudável, do músculo tenso para soltar a flecha. Nada se assegura no esteio da morada e ronda com chamas de gazes quem por ventura pensar em driblar sua vigilância, o pus de mil olhos grudados no ato de cada gesto, mesmo insignificante. Os relâmpagos dos corpos, em especial quando estão juntos no centímetro cúbico que lhes cabe deste latifúndio, são absorvidos pela noite que também consome mínimas doses de energia e o álcool de bocas coloridas no burburinho do encontro a insistir em estabelecer conluio. A solidão escamosa, fria no friso do gelo é seu bofetão mais centralizado e pontiagudo de sua perversidade nada infantil: perseguir, arrasar, embrutecer. Depois, refestela-se com os ossos, as cartilagens, as veias feito couro rígido. Fluídos de tessitura gosmenta desarticulam a ação dos desatentos, daqueles que têm os olhos presos na dança dos copos, e sua gana, sua garra viva são coerentes com a raça dos que esmagam pelo puro prazer de encontrar a carne carcomida, feito um entroncamento de homens suicidas em qualquer metrópole deste pequeno mundo de fardos em série, de série de fotogramas em preto e branco, do preto e branco da ginástica de ter de pendurar-se no corrimão para não rolar escada abaixo, no final de que espera o fosso com lubrificante aceso para tisnar a última posta de carne livre das garras da noite. Ela, a noite, alarga seu halosobre bocas que queriam sondar o silêncio, a pedra do silêncio, para dela extrair seiva destinada a um carinho atroz: boca na boca, boca com boca, boca para boca. Caladas, estas cospem cinza e de cinza se cobrem os corpos sob a noite dos inutensílios, dos mantos rasgados, dos peitos trocados por vil moeda, dinheiro que só a noite mede e contabiliza. A arte acabou, a vida perdeu a força, Eros dançou na farpa do talho, no pau a pique, e a cada gesto seu ela, a noite, grita mais alto, apagando a série finita de sinais vermelhos e convidativos para a ultrapassagem. Com ela só resta o gris da volta ao claustrofóbico, a abertura foi ilusão, o doce embalo, um convicto veneno.

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